domingo, 26 de junho de 2016

Fadinhos p'ra quem trabalha


Como qualquer cidadão masculino de classe média da sua geração, um dos passatempos preferidos do meu pai era estar deitado na cama, a fumar, a preencher o totobola e a ouvir telefonia.

Mas depois do 25 de Abril começaram os problemas. A música nem sempre era a da sua preferência. Consequentemente, em vez de pegar no telefone e reclamar para a Emissora Nacional ou para o Rádio Clube Português, preferia agarrar no aparelho e dirigir-se ao meu quarto, a fazer de velhinho, a cambalear, a coxear e a tropeçar, em consonância com o papel.

Se eu já estivesse a dormir, melhor ainda. Metia a cabecinha de lado, fazia uma expressão infeliz e desgraçadinha, como se fosse um servo da gleba perante um poderoso e austero senhor feudal, encolhia os ombros, mostrava-me a telefonia, e dizia: 

- Podiam dar fadinhos... (mais ares de infelicidade) p'ra quem trabalha... p'ra quem trabalha...

E afastava-se, a cambalear, a coxear e a tropeçar.

Sendo que eu era um miúdo e não o dono de nenhuma emissora de rádio, ficava a pensar porque é que ele me vinha pedir os tais fadinhos p'ra quem trabalha.

Tinha que me levantar muito cedo para apanhar o comboio para ir para o liceu - ele dizia sempre para eu estudar, para ser "alguém", de modo a poder alcançar a plenitude da existência: "bater charuto".

Ora se eu queria cumprir a vontade paterna de vir um dia a honrar a família batendo charuto, como podia ao mesmo tempo deixar os estudos e ir trabalhar, para assim partilhar o fardo de a telefonia não transmitir a quantidade aceitável de fadinhos?
Tudo isto me fazia perder o sono.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Gritar à Televisão


Gritar à televisão sempre foi um dos desportos preferidos do meu pai. Eu era muito miúdo e não percebia a mecânica da coisa. Daí que fosse sempre apanhado de surpresa.

Por exemplo: é noite festival da canção, e a televisão a preto e branco está a transmitir, digamos, a cancenotista Tonicha, que também foi gritar à televisão as habituais inanidades sobre trigo, ceifeiras, linho, papoilas, etc..

Portugal inteiro (territórios ultramarinos incluídos) está suspenso na gritaria, perdão, no poema e na melodia, avaliando até que ponto a canção cumpre os dois requisitos para ser gritada em Haia ou em Bristol: ser festivaleira e entrar bem no ouvido.

Portugal inteiro? Não! Um valente português resiste heroicamente.
Após prolongado silêncio em que esteve a "encher" (a acumular raiva: outro dos seus desportos preferidos), explode, num grito que atroa pelo bairro inteiro. A espernear, com a minha mãe e a minha avó penduradas, tentando em vão acalmá-lo, vai bramindo a plenos pulmões, enquanto se cospe todo:

"FILHOS DA PUTA!!! FILHOS DA PUTA!!! FILHOS DA PUTA!!".

Às cabriolas pelo ar, em turbilhão, a minha avó e a minha mãe choram e suplicam:

"Ó  FILHO TEM CALMA!!! Ó  FILHO TEM CALMA!!!".

Eu estou escondido debaixo da mesa, em pânico.  

Ofegante, por causa dos três maços diários, continua as invectivas amargas e furiosas:

"FILHOS DA PUTA!!! (PUF... PUF...) "FILHOS DA PUTA!!! (PUF... PUF...) NÃO MOSTRAM AS PERNAS DA MULHER!!!".

A minha mãe e a minha avó dão-lhe razão. Realmente, não se faz! Porque é que não mostram as pernas da rapariga, os malandros?!... Não vêem o mal que estão a causar?!...

Os cameramen e os realizadores de televisão, enquanto uma cantora canta, não deviam estar cá a distrair-se com a cara, os braços ou as mãos; com o rico repertório de expressões e gestos  que caracterizam a interpretação de qualquer cancenotista que se preze. Muito menos com a orquestra ou o coro.

O que eles deviam mostrar era as pernas! Que são, no fundo, a única coisa que interessa na vida.

Claro, que seria bem melhor, e poupava-se muito encher de chouriços, se a Tonicha chegasse ali, e, em vez de cantar, se pusesse toda nua, abrisse as pernas, desse duas palmadas na vagina e clamasse:

"ORA CÁ ESTÁ ELA, RAPAZIADA!!! ORA CÁ ESTÁ ELA!!!".



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(Depois do 25 de Abril começou a gritar também por causa da política. E a Tonicha também, curiosamente.)