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quarta-feira, 28 de março de 2018

O Pêndulo


O meu pai inventou a arte do pêndulo. A arte do pêndulo consiste em esconder-se atrás de uma esquina, manter as pernas imóveis, e dobrar rapidamente o tronco pela cintura, a 90 graus, de modo  espreitar, recolhendo-o rapidamente. As pernas não mexem, o tronco bascula, para cocar o que se passa, e esconde-se, o mais depressa possível. E repete. Como um pêndulo.
Quando era miúdo, estranhava bastante, ir a andar pela rua, ou estar em casa sossegado, e vê-lo aparecer e desaparecer, aparecer e desaparecer, aparecer e desaparecer, em meio corpo. Ou ir a sair, e ser acompanhado pelas suas aparições e desaparições na janela, qual um cuco no respectivo relógio. 
Demorei a perceber o porquê da manobra. Ele pretende ser invisível. Como os ninjas, mas com muito menos eficácia.
É divertido, estarmos em casa, no quintal, na rua, em qualquer lado, enquanto ele faz o pêndulo. Depois recolhe-se, dá a volta, e aparece do lado oposto, a dizer, com ar de quem acaba de chegar: "Olá! Então por aqui?". Completamente convencido da sua invisibilidade. 
O pêndulo é um resumo tangível de toda uma filosofia de vida. Ver e não ser visto, ouvir e não ser ouvido, enganar e não ser enganado, ser o esperto num mundo de parvos. Quando a dura realidade é que ele não engana ninguém. Toda a gente o vê e lhe topa todas as manobras à légua. Toda a gente menos ele.
É com certo orgulho que afirmo que o pêndulo atravessa gerações,  e que os meus filhos já tiveram oportunidade de testemunhar essa maravilha da Natureza. O meu sonho é que os meus netos também me apareçam um dia em casa, de olhos a brilhar, exclamando: "Avô! Avô! Era verdade o que nos contaste! Vimos o bisavô a fazer o pêndulo!".
Até gostava de ter um retrato de família, com os membros todos, em primeiro plano, e lá ao fundo o meu pai, a assomar atrás de uma parede, com o tronco a 90 graus. A fazer o pêndulo.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

O Jogo das Almofadas


Uma das melhores evidências de que o meu pai sempre foi um brincalhão, é, sem dúvida, o famoso jogo das almofadas, uma consagrada tradição familiar, que envolvia dois jogadores - o meu pai e eu - e um sortido de almofadas de veludo preto, pintadas com paisagens icónicas de diversos países, com rebordo de nylon franjado amarelo e acabamento de purpurinas. Um jogo ao mesmo tempo divertido e cultural. 
Dentre o razoável sortido que possuíamos, recordo sobretudo a almofada da Ponte de Londres, rectangular, maior, e a da Holanda, quadrada e mais manejável.
As regras do jogo eram as seguintes:
A seguir ao jantar, o meu pai chamava-me com voz amável.  Sentado, perna traçada, com as suas calças à boca de sino, os seus sapatos de plataforma e a sua camisa estampada, de colarinhos de prateleira, com o permanente SG Gigante ao canto da boca.
Eu ia, todo contente, cativado pela rara manifestação de simpatia - mais precisamente por ele dar sinais de que sabia da minha existência.
Sentava-me em frente dele e ficava na expectativa. 
Ele não dizia nada, ficava apenas a sorrir durante uns minutos.
A minha  curiosidade e expectativa cresciam. Será que me ia oferecer um presente? Será que me ia perguntar por novidades do escutismo
Ele pegava então numa das almofadas  de veludo preto, pintadas com paisagens e purpurinas, e dava-me com ela na cara, devagarinho.
Eu ficava surpreendido, mas levava o suave toque da almofada como uma inaudita manifestação de carinho, e sorria.
Depois vinha outra pancadinha da almofada, um bocadinho mais forte. O sorriso mantinha-se. 
E outra, e o sorriso começava a vacilar.
O jogo continuava, com pancadas cada vez mais fortes, até à intensidade de arrancar a cabeça, e era nesse ponto que eu começava a chorar.
Ele então explodia num trovão de gargalhadas e saía porta fora, para o café. 
Ele era muito bom nesse jogo. Ganhava sempre.

Este maravilhoso desporto praticava-se muitas vezes ao som desta linda canção, uma das preferidas do nosso campeão invicto: