O meu pai inventou a arte do pêndulo. A arte do pêndulo consiste em esconder-se atrás de uma esquina, manter as pernas imóveis, e dobrar rapidamente o tronco pela cintura, a 90 graus, de modo espreitar, recolhendo-o rapidamente. As pernas não mexem, o tronco bascula, para cocar o que se passa, e esconde-se, o mais depressa possível. E repete. Como um pêndulo.
Quando era miúdo, estranhava bastante, ir a andar pela rua, ou estar em casa sossegado, e vê-lo aparecer e desaparecer, aparecer e desaparecer, aparecer e desaparecer, em meio corpo. Ou ir a sair, e ser acompanhado pelas suas aparições e desaparições na janela, qual um cuco no respectivo relógio.
Demorei a perceber o porquê da manobra. Ele pretende ser invisível. Como os ninjas, mas com muito menos eficácia.
É divertido, estarmos em casa, no quintal, na rua, em qualquer lado, enquanto ele faz o pêndulo. Depois recolhe-se, dá a volta, e aparece do lado oposto, a dizer, com ar de quem acaba de chegar: "Olá! Então por aqui?". Completamente convencido da sua invisibilidade.
O pêndulo é um resumo tangível de toda uma filosofia de vida. Ver e não ser visto, ouvir e não ser ouvido, enganar e não ser enganado, ser o esperto num mundo de parvos. Quando a dura realidade é que ele não engana ninguém. Toda a gente o vê e lhe topa todas as manobras à légua. Toda a gente menos ele.
É com certo orgulho que afirmo que o pêndulo atravessa gerações, e que os meus filhos já tiveram oportunidade de testemunhar essa maravilha da Natureza. O meu sonho é que os meus netos também me apareçam um dia em casa, de olhos a brilhar, exclamando: "Avô! Avô! Era verdade o que nos contaste! Vimos o bisavô a fazer o pêndulo!".
Até gostava de ter um retrato de família, com os membros todos, em primeiro plano, e lá ao fundo o meu pai, a assomar atrás de uma parede, com o tronco a 90 graus. A fazer o pêndulo.


