Numa
das minhas primeiras saídas à noite fui a uma coisa que havia dantes e
que se chamava baile de finalistas - acho eu, que era um miúdo. Todo
contente da vida, com um blusão que parecia carpélio mas que na altura
era fixe, com uma boa dose de after-shave, não sabia bem ao que
ia, mas ia bem disposto. O teatro estava iluminado, havia muita
animação, a música fazia vibrar a rua e a minha pessoa.
Aprestava-me
para comprar o bilhete quando o meu amigo Castanha, que se chamava assim
porque o pai vendia castanhas, me chamou em surdina. O Castanha tinha
conhecimentos fabulosos sobre o mundo. Fez-me sinal para o seguir,
dobrámos a esquina do teatro e na empena deparei com um espectáculo
inaudito: na enorme parede nua, até à altura de um 3º andar, estavam
como que colados uma boa dezena e meia de mancebos!
Aturdido,
olhava para o Castanha, que sorria, contente consigo mesmo por estar a
ensinar as coisas da vida ao seu jovem e inexperiente amigo. Só então
comecei a reparar que aqueles jovens todos usavam como apoio pequenas
anfractuosidades da parede, cicatrizes de antigas construções que
outrora se tinham apoiado na empena do garboso teatro.
Sorri
perante a ideia daquela gigantesca caixa de música, a abarrotar de
gente e animação, ignorante dos arrojados alpinistas ali colados ao seu
flanco. Mas o melhor estava para vir.
- Ó Castanha, mas o que é que eles estão ali a fazer? - perguntei.
O Castanha apontou-me duas frestas iluminadas. Era a casa de banho das mulheres!
Não
estava muito certo de querer fazer aquilo, mas não me atreveria a
recusar uma oferta tão generosa, para não ofender o Castanha, de modo
que comecei a minha escalada. Na fila de alpinistas constava que o
melhor da noite fora quando a filha do Zeferino dos pneus começou a
comentar com uma amiga que um determinado indivíduo com quem estivera a
dançar tinha feito uma pressão de tal modo veemente na sua genitália que
ela tinha quase chegado a vias de orgasmo. Alguns diziam mesmo que as
duas teriam começado a remediar a situação entre elas, mas que
foram interrompidas quando um alpinista mais entusiasmado lhe escapou um
pé e soltou um palavrão, mas eu ainda acho que deve ter sido invenção
deles.
A meio da escalada
confesso que os relatos me entusiasmaram, e esperava que me calhasse
alguma coisa sugestiva. Mas, com a minha falta de sorte só consegui
estar muito desconfortável, em equilíbrio precário, a uns 10 metros de
altura, enquanto uma rapariga magra, de pele muito branca e cabelo
preto escorrido, com um blusão de bombazina cintado, se sentou na
sanita. Achei que tinha um rabo desinteressante, mas convenhamos que naquela situação qualquer rabo o seria.
- Dá vez! Dá a vez! - exigiram os parceiros de escalada.
Dei
a vez com um bocadinho de vergonha de me entregar a uma actividade tão
indigna, e também um bocadinho desapontado por me ter calhado um rabo tão frustrante.
Perguntava-me até qual seria a graça de arriscar a vida para
espiar raparigas na casa de banho, mas como toda a gente estava
intensamente feliz, não quis parecer um anormal e calei-me.
Felizmente,
para dissipar tantas e tão contraditórias emoções, estava no bar um
grupo de indivíduos de Peniche que fumavam liamba e bebiam cerveja e um
deles introduzia anzóis na cerveja e no fim comia o copo.
Nunca tive muita sorte com os barbeiros. O primeiro nem era mau. Era o senhor Castro (pseudónimo, como todos os barbeiros abaixo mencionados). Não tinha cadeira de barbeiro giratória. Era ele que girava à volta dos clientes. Mas tinha o hábito de respirar de boca aberta e sofria do estômago. Para além de levar com a respiração do senhor Castro, ele mandava-me sempre comprar bicarbonato à mercearia, para aliviar a sua maleita.
Uma vez disse ao meu pai, com muito cuidado. Ele semicerrou os olhos e murmurou, pensativo: "O bafo do Castro... quando eu era miúdo também não gostava...".
Quando o senhor Castro se reformou, passei a ir à barbearia do senhor Dias (diz uma lenda urbana que o senhor Dias foi preso por ter feito a barba ao Carvalho, uma nota de cultura geral que não me parece descabida). Era grande, cheia de espelhos, tinha uma fila de cadeiras e ficava na rua principal. Chegasse a que horas chegasse, ficava até às 7 da tarde, porque na altura os miúdos eram sempre os últimos a ser atendidos. Quando chegava a minha vez, enquanto me cortavam o cabelo, bombardeavam-me com perguntas irónicas sobre a minha vida sexual - que era uma coisa que eu não tinha nem sabia o que era. Como nunca tive o jogo de cintura de outros miúdos, não os mandava para lado nenhum.
Visto que chegava a casa já de noite, obtive autorização para ir ao Zé Barbeiro. Era uma barbearia mais pequena, só com duas cadeiras. Tinha espelhos nas duas paredes opostas, pelo que eu via centenas de Zés Barbeiros a cortarem o cabelo a centenas de eus. Somado ao hálito de vinho do Zé Barbeiro, era um bocado psicadélico.
A meio do corte de cabelo, ele pegava sempre em mim, metia a minha cabeça debaixo do braço dele e ia comigo pela rua fora, todo dobrado, até à taberna. Bebia uns copos, e obrigava-me a beber. Eu tentava recusar, mas ele dizia logo: "Mau! És panelêro, ó quê?!...". Eu bebia o vinho, com o corpo num ângulo recto em relação às pernas (não era fácil) e ele voltava para a barbearia, sempre comigo debaixo do braço. Quando comecei a chegar a casa bêbado, tive autorização para voltar a mudar de barbeiro.
O novo barbeiro também se chamava Zé. Não respirava para cima dos clientes, atendia-me na ordem de chegada (eu também já era mais velho), e não me obrigava a beber vinho. Mas era obcecado por dinheiro. Aproveitava o meu corte de cabelo para comer. Metia-se na casa de banho, com a cabeça de fora, a comer pão com manteiga e a dizer que era num instante. Assim, poupava dinheiro numa refeição como deve ser.
Quando se falava de dinheiro, ele desatava a rir-se como um louco, com os olhos todos brilhantes. Quando apareceu um homem que estava a viver nos Estados Unidos e disse que lá enterravam os mortos em pé para poupar espaço e ganhar mais dinheiro, ele quase que levantava voo de entusiasmo e começou a dizer que ia era para a América abrir uma "agência funerala".
Um dia apareceu o filho dele, ainda muito pequeno, para lhe mostrar um barco que tinha feito com bocados de madeira e de plástico. Ele desatou aos gritos, a perguntar ao miúdo se "aquilo" lhe dava algum dinheiro, e partiu o barco todo.
Nesse dia ele estava inspirado. Estava lá um miúdo aí de uns 3 anos, que se pôs a brincar com a cadeira giratória do lado. Um cliente avisou-o: "Olha que tu cais...".
O senhor Zé replicou, todo ele a pulsar de alegria e esperança: "Deixe estar... que ele não tarda nada bate com os dentes no chão, depois a cadeira dá a volta e apanha-o pela nuca, fica aí todo partido e cheio de sangue, que é uma maravilha...".
Acabaram-se aí os barbeiros. Passei a cortar o cabelo a mim mesmo, o que não terá contribuído pouco para o meu ar de psicopata.
As celebrações do Dia de Todos os Santos na casa dos meus pais começavam logo na véspera. Fiel à tradição, o meu pai passava o dia a perguntar à minha mãe se "já tinha preparado a campainha".
Tratava-se de envolver o martelete em papel, de modo a que quando alguém carregasse no botão exterior, este não se movesse e não houvesse ruído. A pergunta era rectórica. Era apenas uma forma de ele lembrar a toda a gente que já estava imbuído do espírito doPão por Deus. À noite, deitava-se na cama e voltava a levantar-se para ir verificar e corrigir o dispositivo, sempre praguejando, como era da praxe.
Na manhã seguinte, a minha mãe ia para a missa, eu ia para o Pão por Deus, e o meu pai, excepcionalmente, ficava na cama, a amaldiçoar "os sacanas dos miúdos que não o deixavam dormir". Apesar de a campainha estar "preparada" e não soar, ouviam-se as vozes alegres deles, na esperança de serem atendidos e de levarem a recompensa nas sacolas. A popularização das campainhas eléctricas modernas, que fazem ding-dong, foi para o meu pai um duro golpe. Dão um trabalhão a "preparar".
Ele não gosta do Pão por Deus porque nunca gostou de nenhuma actividade que envolvesse dar. Na óptica dele, daré "encher o cu a gulosos", que "têm mais na farinha do que a gente tem no farelo". Mesmo objectos muito velhos, obsoletos, inúteis, decrépitos, ele não dá. Porque as pessoas depois se calhar "não os estimam" e porque podem fazer falta "de hoje para amanhã".
E também não gostava que eu fosse ao Pão por Deus, "porque tinha comer lá em casa e essas coisas eram para os miúdos pobres, coitadinhos, que eles sim, têm precisão". Mas eu era um entusiasta do Pão por Deus. Sempre fui um entusiasta das coisas, ao contrário dele. Daí talvez estarmos tão frequentemente em desacordo. Por "tão frequentemente" entenda-se sempre.
Quando eu voltava de uma alegre manhã de pedincha com os outros miúdos, vinha intensamente feliz com as maravilhas que me tinham deitado na sacola. O que sempre me fascinou acima de tudo foram os mini-sabonetes que os farmacêuticos nos davam.
Estava eu absorto e encantado a admirar aqueles tesouros, quando aparecia o meu pai. Ficava a fitar-me durante um bom bocado, com um sorriso encenado de tristeza e amargura.
- Então... tiveste pouca coisa, hã?...
Era um balde de água fria. Eu tentava alinhavar algumas palavras de justificação, já com um nó na garganta.
- Não... eu... eu gostei muito... eu...
Ele sempre se gabou de "ter o curso de irritar pessoas", mas penso que se trata de modéstia, porque também é muito competente a embaraçar, deprimir e desconcertar. Intensificava o sorriso e ia deixando cair palavras de "consolo":
- Deixa estar... não fiques triste... pior estão os miúdos pobrezinhos, que se pudessem iam outra vez à tarde, para matarem a fominha...
Tudo se transformava em gelo e escuridão. O nó na garganta apertava. Não conseguia evitar e começava a chorar. Ele explodia numa gargalhada e desatava a gritar, todo entusiasmado, a chamar a minha mãe:
- Ó Clarinha! Ó Clarinha! Anda cá ver isto! Está a chorar porque teve pouco Pão por Deus!