Seria talvez 1968. Estavam a passar-se coisas interessantes no mundo - e até mesmo na Rua de Trás - mas eu tinha que ficar todo o dia dentro de casa, "sentadinho, caladinho e quietinho", sob custódia da minha avó.
Tic-tac-tic-tac-tic-tac... fazia o relógio de pêndulo. Mais um minuto. Tic-tac-tic-tac-tic-tac...- outro minuto. Aquele pêndulo era a minha única distracção. E a cada hora, o grande acontecimento: DONG!... DONG!... DONG!... As badaladas do relógio.
Todos os dias o mesmo, de manhã à noite. A cadeira, a ordem de permanecer imóvel e silencioso, a marquise, o vento sinistro a assobiar lá fora, casuais borrifadelas de chuva nas vidraças, o frio, a roupa de fibra acrílica (que picava), as nuvens negras.
Num desses dias, quando a minha incorrigível tendência para a estouvadice já dava os primeiros sinais, comecei a olhar para a tampa de madeira da máquina de costura Singer. A minha avó costurava, e tampa estava a um canto, no chão. Um mundo de possibilidades ao alcance da mão.
Maníaco furioso, esgueirei-me silenciosamente da cadeira de estar quietinho e caladinho, e ao cabo de uns 10 minutos já estava sentado em cima da tampa, a imaginar que se tratava de um cavalo e que eu era um cow-boy a cavalgar pelas pradarias.
Fui trazido do deserto de Sonora para a Estremadura portuguesa numa fracção de segundo, com uma valente lamparina nos olhos, que até me fez ver estrelas de xerife. Sem dar tempo a reflexões, choviam bofetadas e palmadas por todo o corpo, complementadas pela clássica terapia da colher de pau. Primeira sova.
Doido e impossível de educar, não tardou aí uma escassa hora que não fizesse novo disparate. Dessa vez, imaginei poder navegar para longe da eterna marquise usando a tampa da máquina de costura como um barco. Não chegou ao mar alto, a embarcação, afundada por meia dúzia de punhadas certeiras da boa senhora, sempre com o auxílio da colher de pau. Segunda sova.
Se fossem necessárias provas de que estávamos já perante um delinquente da pior espécie, nessa tarde ainda tentei mais uma vez a sorte na caixa da máquina de costura, fazendo dela uma casota de cão. Sentei-me lá dentro e comecei a ladrar, feliz. Terceira sova, colher de pau e atirado pelas escadas traseiras, de cimento, até ao rés-do chão.
Quando cheguei cá abaixo, em vez de chorar comecei a ganir. Não me perguntem porquê.
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