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terça-feira, 3 de outubro de 2017

A Tampa da Máquina de Costura


Seria talvez 1968. Estavam a passar-se coisas interessantes no mundo - e até mesmo na Rua de Trás - mas eu tinha que ficar todo o dia dentro de casa, "sentadinho, caladinho e quietinho", sob custódia da minha avó.
Tic-tac-tic-tac-tic-tac... fazia o relógio de pêndulo. Mais um minuto.  Tic-tac-tic-tac-tic-tac...- outro minuto. Aquele pêndulo era a minha única distracção. E a cada hora, o grande acontecimento: DONG!... DONG!... DONG!... As badaladas do relógio.
Todos os dias o mesmo, de manhã à noite. A cadeira, a ordem de permanecer imóvel e silencioso, a marquise, o vento sinistro a assobiar lá fora, casuais borrifadelas de chuva nas vidraças, o frio, a roupa de fibra acrílica (que picava), as nuvens negras. 
Num desses dias, quando a minha incorrigível tendência para a estouvadice já dava os primeiros sinais, comecei a olhar para a tampa de madeira da máquina de costura Singer. A minha avó costurava, e tampa estava a um canto, no chão. Um mundo de possibilidades ao alcance da mão.
Maníaco furioso, esgueirei-me silenciosamente da cadeira de estar quietinho e caladinho, e ao cabo de uns 10 minutos já estava sentado em cima da tampa, a imaginar que se tratava de um cavalo e que eu era um cow-boy a cavalgar pelas pradarias. 
Fui trazido do deserto de Sonora para a Estremadura portuguesa numa fracção de segundo, com uma valente lamparina nos olhos, que até me fez ver estrelas de xerife. Sem dar tempo a reflexões, choviam bofetadas e palmadas por todo o corpo, complementadas pela clássica terapia da colher de pau. Primeira sova
Doido e impossível de educar, não tardou aí uma escassa hora que não fizesse novo disparate. Dessa vez, imaginei poder navegar para longe  da eterna marquise usando a tampa da máquina de costura como um barco. Não chegou ao mar alto, a embarcação, afundada por meia dúzia de punhadas certeiras da boa senhora, sempre com  o auxílio da colher de pau. Segunda sova.
Se fossem necessárias provas de que estávamos já perante um delinquente da pior espécie, nessa tarde ainda tentei mais uma vez a sorte na caixa da máquina de costura, fazendo dela uma casota de cão. Sentei-me  lá dentro e comecei a ladrar, feliz. Terceira sova, colher de pau e atirado pelas escadas traseiras, de cimento, até ao rés-do chão. 
Quando cheguei cá abaixo, em vez de chorar comecei a ganir. Não me perguntem porquê.

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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A Colher de Pau


O protagonista principal da minha infância foi a colher de pau. Nada nem ninguém esteve mais presente no meu quotidiano e nas minhas preocupações. Quando percebi que as colheres de pau não serviam apenas para espancar crianças, já devia ter uns 12 anos. E fiquei deveras surpreendido.
A segurar a colher de pau estava a minha avó, 1 metro e 30 de altura, 1 metro e trinta de diâmetro, rubicunda, a rebentar de cólera.  Por tudo e por nada (mas sobretudo por nada) corria para a cozinha e atirava-se à gaveta dos utensílios, emitindo guinchos aterradores. "UIIIIIIIINNN!!! UIIIIIIIINNN!!!" - a raiva que levava era tanta, que não conseguia coordenar os movimentos para abrir a gaveta, desperdiçando as energias a abaná-la violentamente. 
A frustração aumentava-lhe exponencialmente a irritação, de modo que, quando finalmente tinha a colher na mão, vinha num estado tal que não poucas vezes partia a colher. E se a dor causada por uma colher  inteira já é um suplício, imagine-se quando a colher está partida, cheia de bicos afiados e farpas de madeira prontas a incrustarem-se-nos nas nádegas. 
"Mas decerto que o Alexandre era um traquinas, para abalar assim a pobre anciã" -  pensariam os leitores, se eu os tivesse.
Pois na verdade, imaginários leitores, eu nada fazia a não ser mexer-me. Ela insistia que eu ficasse sentado numa cadeira, "caladinho e quietinho". E eu, que passava 8 ou 9 horas por dia sozinho com ela, e era uma criança em idade pré-escolar, tinha alguma dificuldade em ficar sentado e silencioso a filosofar durante um período tão extenso. Mexia-me! E levava. De cada vez que me mexia.
Não quero agora meter-me a psicólogo nem nada que se pareça, mas ainda assim estou convencido de que estas curiosas experiências  terão sido parcialmente responsáveis pelo meu interesse por drogas e auto-destruição em geral.


quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Escutismo


Quem leia este blog pode ficar com a ideia de que a personagem principal - o meu divertido pai - é uma pessoa um tanto abrasiva, pouco dada a demonstrações de afecto e assim. Nada mais longe da verdade.  
Durante os 7 anos em que estive no escutismo, ele demonstrou sempre um vivo interesse nessa actividade que tanto me apaixonava. Sempre que começava a falar em escutismo, ele punha imediatamente a mão em concha atrás do ouvido, e proferia as seguintes palavras: 
"Escutar... escutar...". 
Depois ria-se e ia para o café.