O meu pai a ir buscar pão...
Fazer das coisas mais prosaicas um conflito interminável não está ao alcance de todos. Apenas os bafejados pelo talento conseguem usar por exemplo o pão, como motivo de polémica e militância. Comer pão em quantidades industriais durante as refeições - defende o meu pai - é dar provas de um carácter superior e excelentes qualidades humanas.
Por dois motivos: o científico e o económico.
O científico está consagrado no axioma: "o pão é a base da alimentação, e quem não acompanha a refeição com pão é um guloso de merda".
O económico, estreitamente ligado ao anterior, é que quem não se enche de pão durante a refeição acaba por comer mais "do bom", causando assim mais "prejuízo".
Na óptica do meu pai, o dinheiro gasto em comida é o mais mal empregado que existe, porque a comida entra e sai e a gente não tira proveito nenhum dela. Aliás, para ele, todo o dinheiro é mal gasto. À excepção do que se gasta em automóveis de luxo e produtos Paco Rabanne.
Desde que saí da casa dos meus pais, que as minhas refeições deixaram de ser uma sofisticada forma de tortura, que descrevi em Adivinha Quem Vem Jantar. Mas isso não é motivo para que o meu pai deixe de praticar a fina arte de ser ele mesmo.
Quando apareço lá em casa, ele fica imediatamente em pânico, receoso de que a minha mãe me convide para almoçar e eu não coma pão suficiente. Por outro lado, fica excitado, ansioso por reviver as velhas sagas do pão, os rigores puritanos da morigeração dos apetites e as pregações das virtudes economicistas de não se comer muito "do bom".
Ao mesmo tempo, sente-se desconfortável ante a sugestão de que o seu comportamento possa ter algo a ver com sovinice e mesquinhez. De modo que, tomado por esse caleidoscópio de emoções contraditórias, desata a convidar-me para "comer" (ele nunca diz "almoçar" ou "jantar"), desejando simultaneamente que eu aceite e que não aceite, pelas razões supra citadas.
Se me apanha sentado à mesa começa logo a falar em pão. De tal forma que comecei a levantar-me e a sair, antes mesmo de começar a refeição.
Instado pela minha mãe a não falar em pão, optou por uma forma mais subtil de fazer lembrar a sua ideologia, que consiste em olhar para mim e para o pão, para mim e para o pão, para mim e para o pão, até eu me levantar e sair.
Ante a insistência da minha mãe, desistiu dos olhares e até mesmo de empurrar bocadinhos de pão na minha direcção pela mesa afora. Em vez disso, assim que me vê chegar, antes mesmo de eu entrar em casa, precipita-se para a porta, salta para o carro e arranca, com as rodas a chiar, numa correria louca.
Passado um bocadinho ouve-se uma longa travagem, o ruído do travão de mão puxado com energia, ele sai do carro, a correr, com um saco de pão enorme nas mãos e põe-no em cima da mesa. Arquejante, começa a flectir as pernas e a aconchegar o pão, enquanto olha para as pessoas, com ar de desgraçadinho incompreendido.
Não tenho lá almoçado muitas vezes.


























