sexta-feira, 23 de novembro de 2018

O Rally do Pão



O meu pai a ir buscar pão...

Fazer das coisas mais prosaicas um conflito interminável não está ao alcance de todos. Apenas os bafejados pelo talento conseguem usar por exemplo o pão, como motivo de polémica e militância. Comer pão em quantidades industriais durante as refeições - defende o meu pai - é dar provas de um carácter superior e excelentes qualidades humanas.
Por dois motivos: o científico e o económico.
O científico está consagrado no axioma: "o pão é a base da alimentação, e quem não acompanha a refeição com pão é um guloso de merda"
O económico, estreitamente ligado ao anterior, é que quem não se enche de pão durante a refeição acaba por comer mais "do bom", causando assim mais "prejuízo"
Na óptica do meu pai, o dinheiro gasto em comida é o mais mal empregado que existe, porque a comida entra e sai e a gente não tira proveito nenhum dela. Aliás, para ele, todo o dinheiro é mal gasto. À excepção do que se gasta em automóveis de luxo e produtos Paco Rabanne. 
Desde que saí da casa dos meus pais, que as minhas refeições deixaram de ser uma sofisticada forma de tortura, que descrevi em  Adivinha Quem Vem JantarMas isso não é motivo para que o meu pai deixe de praticar a fina arte de ser ele mesmo. 
Quando apareço lá em casa, ele fica imediatamente em pânico, receoso de que a minha mãe me convide para almoçar e eu não coma pão suficiente. Por outro lado, fica excitado, ansioso por reviver as velhas sagas do pão, os rigores puritanos da morigeração dos apetites e as pregações das virtudes economicistas de não se comer muito "do bom". 
Ao mesmo tempo, sente-se desconfortável ante a sugestão de que o seu comportamento possa ter algo a ver com sovinice e mesquinhez. De modo que, tomado por esse caleidoscópio de emoções contraditórias, desata a convidar-me para "comer" (ele nunca diz "almoçar" ou "jantar"), desejando simultaneamente que eu aceite e que não aceite, pelas razões supra citadas.
Se me apanha sentado à mesa começa logo a falar em pão. De tal forma que comecei a levantar-me e a sair, antes mesmo de começar a refeição. 
Instado pela minha mãe a não falar em pão, optou por uma forma mais subtil de fazer lembrar a sua ideologia, que consiste em olhar para mim e para o pão, para mim e para o pão, para mim e para o pão, até eu me levantar e sair.
Ante a insistência da minha mãe, desistiu dos olhares e até mesmo de empurrar bocadinhos de pão na minha direcção pela mesa afora. Em vez disso,  assim que me vê chegar, antes mesmo de eu entrar em casa, precipita-se para a porta, salta para o carro e arranca, com as rodas a chiar, numa correria louca. 
Passado um bocadinho ouve-se uma longa travagem, o ruído do travão de mão puxado com energia, ele sai do carro, a correr, com um saco de pão enorme nas mãos e põe-no em cima da mesa. Arquejante, começa a flectir as pernas e a aconchegar o pão, enquanto olha para as pessoas, com ar de desgraçadinho incompreendido.
Não tenho lá almoçado muitas vezes. 

quarta-feira, 28 de março de 2018

O Pêndulo


O meu pai inventou a arte do pêndulo. A arte do pêndulo consiste em esconder-se atrás de uma esquina, manter as pernas imóveis, e dobrar rapidamente o tronco pela cintura, a 90 graus, de modo  espreitar, recolhendo-o rapidamente. As pernas não mexem, o tronco bascula, para cocar o que se passa, e esconde-se, o mais depressa possível. E repete. Como um pêndulo.
Quando era miúdo, estranhava bastante, ir a andar pela rua, ou estar em casa sossegado, e vê-lo aparecer e desaparecer, aparecer e desaparecer, aparecer e desaparecer, em meio corpo. Ou ir a sair, e ser acompanhado pelas suas aparições e desaparições na janela, qual um cuco no respectivo relógio. 
Demorei a perceber o porquê da manobra. Ele pretende ser invisível. Como os ninjas, mas com muito menos eficácia.
É divertido, estarmos em casa, no quintal, na rua, em qualquer lado, enquanto ele faz o pêndulo. Depois recolhe-se, dá a volta, e aparece do lado oposto, a dizer, com ar de quem acaba de chegar: "Olá! Então por aqui?". Completamente convencido da sua invisibilidade. 
O pêndulo é um resumo tangível de toda uma filosofia de vida. Ver e não ser visto, ouvir e não ser ouvido, enganar e não ser enganado, ser o esperto num mundo de parvos. Quando a dura realidade é que ele não engana ninguém. Toda a gente o vê e lhe topa todas as manobras à légua. Toda a gente menos ele.
É com certo orgulho que afirmo que o pêndulo atravessa gerações,  e que os meus filhos já tiveram oportunidade de testemunhar essa maravilha da Natureza. O meu sonho é que os meus netos também me apareçam um dia em casa, de olhos a brilhar, exclamando: "Avô! Avô! Era verdade o que nos contaste! Vimos o bisavô a fazer o pêndulo!".
Até gostava de ter um retrato de família, com os membros todos, em primeiro plano, e lá ao fundo o meu pai, a assomar atrás de uma parede, com o tronco a 90 graus. A fazer o pêndulo.


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Bifes na Neblina



A minha mãe pertence à geração "A Mulher na Sala e na Cozinha", um livro que prescrevia, na sala, muitos cinzeiros para o maridão encher de beatas, e na cozinha, fritos e guisados com fartura. 
O fumo dos cigarros e o fumo dos cozinhados enchia a casa, de modo que eu, quando chegava, até cantarolava aquela canção do Rui Veloso que diz "no meio da neblina...".
Como tenho o pulmão fraco, a casa sempre cheia de fumo  proporcionou-me uma asma vitalícia, que sempre divertiu muito o meu pai. Eu a estudar Matemática para os exames, a arquejar, cheio de farfalheira, e ele a fumar, com o televisor no máximo e o Marco Paulo aos berros. Impagável!
Antes de sair para o café chegava-se ao pé de mim com um cigarro e um isqueiro e começava a fazer uma espécie de malabarismo, tipo "acendo/não acendo", e ia-se embora às gargalhadas pela escada abaixo.
Como também tenho o estômago fraco (talvez devido a uma infância de force-feeding) a dieta de fritos  e guisados era como se estivesse a comer ácido de baterias. Eu pedia salada, alimentos mais leves, cozidos ou grelhados e ele acusava-me logo de ser "fidalgo" e só querer "coisas finas", e dizia: "A malta faz o que é mais rápido".
Mas a carne estufada (que enchia a casa de cheiro a cocó) e a carne guisada (que sabia a cocó) demoravam horas a cozinhar na panela de pressão. Ele só dizia aquilo para me irritar.
A dada altura, quando o meu fraco estômago já não aguentava mais, manifestei vontade de ser vegetariano, o que ele interpretou como o último passo antes de eu me lançar pelas ruas à noite vestido de mulher a engatar estivadores. A minha mãe considerou o meu pedido como um insondável mistério. A minha madrinha de baptismo tinha a mania que era vegetariana, mas quando lhe pedi receitas ela reflectiu profundamente e só se lembrou de "arroz com uma cebola lá dentro".
Depois de andar umas semanas a comer  "arroz com uma cebola lá dentro", declarei-me enjoado e regressei à dieta máscula.
E foi assim que arranjei uma úlcera.

sábado, 11 de novembro de 2017

A Perigosa Escalada


Numa das minhas primeiras saídas à noite fui a uma coisa que havia dantes e que se chamava baile de finalistas - acho eu, que era um miúdo. Todo contente da vida, com um blusão que parecia carpélio mas que na altura era fixe, com uma boa dose de after-shave, não sabia bem ao que ia, mas ia bem disposto. O teatro estava iluminado, havia muita animação, a música fazia vibrar a rua e a minha pessoa.
Aprestava-me para comprar o bilhete quando o meu amigo Castanha, que se chamava assim porque o pai vendia castanhas, me chamou em surdina. O Castanha tinha conhecimentos fabulosos sobre o mundo. Fez-me sinal para o seguir, dobrámos a esquina do teatro e na empena deparei com um espectáculo inaudito: na enorme parede nua, até à altura de um 3º andar,  estavam como que colados uma boa dezena e meia de mancebos!
Aturdido, olhava para o Castanha, que sorria, contente consigo mesmo por estar a ensinar as coisas da vida ao seu jovem e inexperiente amigo. Só então comecei a reparar que aqueles jovens todos usavam como apoio pequenas anfractuosidades da parede, cicatrizes de antigas construções que outrora se tinham apoiado na empena do garboso teatro.
Sorri perante a ideia daquela gigantesca caixa de música, a abarrotar de gente e animação,  ignorante dos arrojados alpinistas ali colados ao seu flanco. Mas o melhor estava para vir.
- Ó Castanha, mas o que é que eles estão ali a fazer? - perguntei.
O Castanha apontou-me duas frestas iluminadas. Era a casa de banho das mulheres!
Não estava muito certo de querer fazer aquilo, mas não me atreveria a recusar uma oferta tão generosa, para não ofender o Castanha, de modo que  comecei a minha escalada. Na fila de alpinistas constava que o melhor da noite fora quando a filha do Zeferino dos pneus começou a comentar com uma amiga que um determinado indivíduo com quem estivera a dançar tinha feito uma pressão de tal modo veemente na sua genitália que ela tinha quase chegado a vias de orgasmo. Alguns diziam mesmo que as duas teriam começado a remediar a situação entre elas, mas que foram interrompidas quando um alpinista mais entusiasmado lhe escapou um pé e soltou um palavrão, mas eu ainda acho que deve ter sido invenção deles.
A meio da escalada confesso que os relatos me entusiasmaram, e esperava que me calhasse alguma coisa sugestiva. Mas, com a minha falta de sorte só consegui estar muito desconfortável, em equilíbrio precário, a uns 10 metros de altura,  enquanto uma rapariga magra, de pele muito branca e cabelo preto escorrido, com um blusão de bombazina cintado, se sentou na sanita. Achei que tinha um rabo desinteressante, mas convenhamos que naquela situação qualquer rabo o seria.
- Dá vez! Dá a vez! - exigiram os parceiros de escalada.
Dei a vez com um bocadinho de vergonha de me entregar a uma actividade tão indigna, e também um bocadinho desapontado por me ter calhado um rabo tão frustrante. Perguntava-me até qual seria a graça de arriscar a vida para espiar raparigas na casa de banho, mas como toda a gente estava intensamente feliz, não quis parecer um anormal e calei-me.
Felizmente, para dissipar tantas e tão contraditórias emoções, estava no bar um grupo de indivíduos de Peniche que fumavam liamba e  bebiam cerveja e um deles introduzia anzóis na cerveja e no fim comia o copo.

 



sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Barbeiros


Nunca tive muita sorte com os barbeiros. O primeiro nem era mau. Era o senhor Castro (pseudónimo, como todos os barbeiros abaixo mencionados). Não tinha cadeira de barbeiro giratória. Era ele que girava à volta dos clientes. Mas tinha o hábito de respirar de boca aberta e sofria do estômago. Para além de levar com a respiração do senhor Castro, ele mandava-me sempre comprar bicarbonato à mercearia, para aliviar a sua maleita.
Uma vez disse ao meu pai, com muito cuidado. Ele semicerrou os olhos e murmurou, pensativo: "O bafo do Castro... quando eu era miúdo também não gostava...".
Quando o senhor Castro se reformou, passei a ir à barbearia do senhor Dias (diz uma lenda urbana que o senhor Dias foi preso por ter feito a barba ao Carvalho, uma nota de cultura geral que não me parece descabida).  Era grande, cheia de espelhos, tinha uma fila de cadeiras e ficava na rua principal. Chegasse a que horas chegasse, ficava até às 7 da tarde, porque na altura os miúdos eram sempre os últimos a ser atendidos. Quando chegava a minha vez, enquanto me cortavam o cabelo, bombardeavam-me com perguntas irónicas sobre a minha vida sexual - que era uma coisa que eu não tinha nem sabia o que era. Como nunca tive o jogo de cintura de outros miúdos, não os mandava para lado nenhum.
Visto que chegava a casa já de noite, obtive autorização para ir ao Zé Barbeiro. Era uma barbearia mais pequena, só com duas cadeiras. Tinha espelhos nas duas paredes opostas, pelo que eu via centenas de Zés Barbeiros a cortarem o cabelo a centenas de eus. Somado ao hálito de vinho do Zé Barbeiro, era um bocado psicadélico.
A meio do corte de cabelo, ele pegava sempre em mim, metia a minha cabeça debaixo do braço dele e ia comigo pela rua fora, todo dobrado, até à taberna. Bebia uns copos, e obrigava-me a beber. Eu tentava recusar, mas ele dizia logo: "Mau! És panelêro, ó quê?!...". Eu bebia o vinho, com o corpo num ângulo recto em relação às pernas (não era fácil) e ele voltava para a barbearia, sempre comigo debaixo do braço. Quando comecei a chegar a casa bêbado, tive autorização para voltar a mudar de barbeiro.
O novo barbeiro também se chamava Zé. Não respirava para cima dos clientes, atendia-me na ordem de chegada (eu também já era mais velho), e não me obrigava a beber vinho. Mas era obcecado por dinheiro. Aproveitava o meu corte de cabelo para comer. Metia-se na casa de banho, com a cabeça de fora, a comer pão com manteiga e a dizer que era num instante. Assim, poupava dinheiro numa refeição como deve ser.
Quando se falava de dinheiro, ele desatava a rir-se como um louco, com os olhos todos brilhantes. Quando apareceu um homem que estava a viver nos Estados Unidos e disse que lá enterravam os mortos em pé para poupar espaço e ganhar mais dinheiro, ele quase que levantava voo de entusiasmo e começou a dizer que ia era para a América abrir uma "agência funerala".
Um dia apareceu o filho dele, ainda muito pequeno, para lhe mostrar um barco que tinha feito com bocados de madeira e de plástico. Ele desatou aos gritos, a perguntar ao miúdo se "aquilo" lhe dava algum dinheiro, e partiu o barco todo.
Nesse dia ele estava inspirado. Estava lá um miúdo aí de uns 3 anos, que se pôs a brincar com a cadeira giratória do lado. Um cliente avisou-o: "Olha que tu cais...".
O senhor Zé replicou, todo ele a pulsar de alegria e esperança: "Deixe estar... que ele não tarda nada bate com os dentes no chão, depois a cadeira dá a volta e apanha-o pela nuca, fica aí todo partido  e cheio de sangue, que é uma maravilha...".
Acabaram-se aí os barbeiros. Passei a cortar o cabelo a mim mesmo, o que não terá contribuído pouco para o meu ar de psicopata.


quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Pão por Deus


As celebrações do Dia de Todos os Santos na casa dos meus pais começavam logo na véspera. Fiel à tradição, o meu pai passava o dia a perguntar à minha mãe se "já tinha preparado a campainha".
Tratava-se de envolver o martelete em papel, de modo a que quando alguém carregasse no botão exterior, este não se movesse e não houvesse ruído. A pergunta era rectórica. Era apenas uma forma de ele lembrar a toda a gente que já estava imbuído do espírito do Pão por Deus. À noite, deitava-se na cama e voltava a levantar-se para ir verificar e corrigir o dispositivo, sempre praguejando, como era da praxe.
Na manhã seguinte, a minha mãe ia para a missa, eu ia para o Pão por Deus, e  o meu pai, excepcionalmente, ficava na cama, a amaldiçoar "os sacanas dos miúdos que não o deixavam dormir". Apesar de a campainha estar "preparada" e não soar, ouviam-se as vozes alegres deles, na esperança de serem atendidos e de levarem a recompensa nas sacolas. A popularização das campainhas eléctricas modernas, que fazem ding-dong, foi para o meu pai um duro golpe. Dão um trabalhão a "preparar".
Ele não gosta do Pão por Deus porque nunca gostou de nenhuma actividade que envolvesse dar. Na óptica dele, dar é "encher o cu a gulosos", que "têm mais na farinha do que a gente tem no farelo". Mesmo objectos muito velhos, obsoletos, inúteis, decrépitos, ele não dá. Porque as pessoas depois se calhar "não os estimam" e porque podem fazer falta "de hoje para amanhã".
E também não gostava que eu fosse ao Pão por Deus, "porque tinha comer lá em casa e essas coisas eram para os miúdos pobres, coitadinhos, que eles sim, têm precisão".  Mas eu era um entusiasta do Pão por Deus. Sempre fui um entusiasta das coisas, ao contrário dele. Daí talvez estarmos tão frequentemente em desacordo. Por "tão frequentemente" entenda-se sempre.
Quando eu voltava de uma alegre manhã de pedincha com os outros miúdos, vinha intensamente feliz com as maravilhas que me tinham deitado na sacola. O que sempre me fascinou acima de tudo foram os mini-sabonetes que os farmacêuticos nos davam.
Estava eu absorto e encantado a admirar aqueles tesouros, quando aparecia o meu pai.  Ficava a fitar-me durante um bom bocado, com um sorriso encenado de tristeza e amargura.
- Então... tiveste pouca coisa, hã?...
Era um balde de água fria. Eu tentava alinhavar algumas palavras de justificação, já com um nó na garganta.
- Não... eu... eu gostei muito... eu...
Ele sempre se gabou de "ter o curso de irritar pessoas", mas penso que se trata de modéstia, porque também é muito competente a embaraçar, deprimir e desconcertar. Intensificava o sorriso e ia deixando cair palavras de "consolo":
 - Deixa estar... não fiques triste... pior estão os miúdos pobrezinhos, que se pudessem iam outra vez à tarde, para matarem a fominha...
Tudo se transformava em gelo e escuridão. O nó na garganta apertava. Não conseguia evitar e começava a chorar. Ele explodia numa gargalhada e desatava a gritar, todo entusiasmado, a chamar a minha mãe:
- Ó Clarinha!  Ó Clarinha! Anda cá ver isto! Está a chorar porque teve pouco Pão por Deus!





sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Joselito (Tão Pequenino e Já Trabalha)



Sempre que anunciavam na Televisão um filme do Joselito, o menino-prodígio que cantava como um rouxinol, eu já sabia que ia ter problemas.
"Tão pequenino e já trabalha..." - exclamava a minha avó, embevecida.
Não tardava muito que não se virasse para mim e exclamasse:
- "E este cão danado não sabe fazer nada!".
Pronto. Estava dado o sinal de partida. O meu pai começava logo com as suas imprecações:
- "Sacola de merda, que não faz a ponta de um corno! Com  a tua idade fui com uma carroça para o Pinhal...".
Esta era da praxe. E não fazia adivinhar nada de bom.
- "E parei na Várzea para comprar um coto!..." - completava ele, como sempre, esbaforido, já agarrado pela minha mãe e pela minha avó.
- "Eu devia era abandonar-te aí a um canto, para veres o que custa a vida...".
As condenações continuavam, e eu, atónito, ficava a saber que era o responsável por o meu pai ter ido com uma carroça para  o Pinhal e ter parado na Várzea para comprar um coto. E pelos meninos que passavam fome em África. E que em breve seria enviado para os "Meninos da Luz".
Os "Meninos da Luz" deixavam-me deveras assustado. Imaginava uma prisão enorme, uma espécie de terreiro cercado de muros, onde eram encarcerados os meninos maus, que não sabem cantar na Televisão. A designação fazia-me suspeitar que de noite e de dia haveria um projector intenso, a incidir sem piedade sobre os jovens prisioneiros. E desatava a chorar, em pânico.
- "Isso, agora chora..." - diziam-me todos, profundamente ressentidos com o meu comportamento inaceitável.
Nos dias seguintes, sempre que se lembrava da voz cristalina do Joselito, a minha avó arriava-me com força.  Se ao menos eu conseguisse ser como o Joselito. Mas se nem me era permitido mexer-me ou falar, como poderia eu experimentar os meus dotes vocais e lançar-me no mundo do espectáculo?
Nem me atrevia a formular esse pensamento subversivo. Por menos que isso já me tinham chamado um revoltado e um revolucionário (e nisso tinham razão, como atestam estes escritos).
Quando vejo o Cristianinho na Televisão, de fatinho e gravata, muito bem penteadinho, lembro-me logo do meu rival de infância e estou sempre à espera de levar uns tabefes e ser acusado de coisas.



Uma nota sobre o Joselito: "Teve uma vida atribulada, tendo sido acusado pela imprensa espanhola de trabalhar como mercenário em África, ao qual posteriormente o negou, tendo explicado em diversos meios de comunicação na altura as verdadeiras razões para o equivoco. Em 1990 foi detido pela polícia angolana por tráfico de drogas e armas, sempre alegando inocência, pois seria apenas caçador e colecionador. Foi condenado a cinco anos em Espanha, tendo apenas cumprindo dois por boa conduta".
Wikipédia (com a qualidade gramatical do costume)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Adivinha Quem Vem Jantar


O jantar era a refeição mais importante, porque era presidida pelo patriarca. A tensão era palpável.
- "O pão é a base da alimentação!" -  clamava o meu pai, com a indignação e a mágoa dos incompreendidos. 
Ele sempre insistiu para que comêssemos muito pão. 
Antes da refeição: pão. Durante a refeição: mais pão. 
Pão com tudo. Pão com sopa e pão na sopa. Pão com arroz, pão com batatas, pão com massa, pão com açorda. Sobretudo pão com açorda.
Desesperado, sobraçando um bocado de pão do tamanho de uma telefonia com uma mão, e com a outra a enfiar garfadas de açorda pela boca abaixo, dardejava olhares recriminatórios para a Humanidade decadente que não come pão com açorda.
O motivo para esta obsessão com o pão é simples de explicar: o pão era o mais barato dos alimentos, e se uma pessoa se encher de pão, gasta-se menos dinheiro.
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Mal nos sentávamos à mesa começava logo a tortura do pão. Quando a sopa caía no prato, o meu jovem estômago já estava cheio de pão. 
A sopa, também relativamente barata, era-me servida na mesma quantidade que a um adulto.
- "Pelo risco!" - suplicava eu.  Os pratos de sopa dantes tinham um risco azul a delimitar a área onde devia estar a sopa.
- "Está pelo risco!" - gritavam-me em uníssono, irritados com a minha mesquinhez.  
Não estava. Estava sempre meio centímetro acima do risco. Nunca abaixo. 
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Cada colherada era um suplício.
- "Come, Alexandre Manuel! Come, Alexandre Manuel! Come, Alexandre Manuel! Qualquer dia ponho aqui um gravador a dizer 'Come, Alexandre Manuel!".
- "Tira os cotovelos da mesa! Qualquer dia ponho aqui duas almofadas com alfinetes para te picares de cada vez que puseres os cotovelos na mesa!". 
E a refeição ia decorrendo, entre variadas sugestões de tortura e recriminações por eu ter nascido.
- "Já não consigo... " - gemia eu.
A minha avó saltava e batia com as palmas das mãos na mesa, enquanto gritava o seu judicioso conselho de sempre:
- "Pespega-lhe um tabefe!  Pespega-lhe um tabefe!".  
À força de tabefes, acabava a sopa, sempre com um debate exaustivo e aceso, em que todas as partes apresentavam os seus argumentos sobre se havia ainda alguma sopa no prato que desse para encher um quarto de colher. Eu perdia sempre.
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Depois de vencida a sopa, o segundo prato era por exemplo peixe frito. Punham-me no prato uma porção de arroz que dava para rebocar um muro, não fosse eu alambazar -me com muito peixe frito.
- "Come pão!..." - advertiam-me logo.
Havia uns pedacinhos de pão que eram fritos juntamente com o peixe. Já a deitar pão seco pelos ouvidos, escolhia um bocadinho desse pão, para ajudar a perfazer a cota exigida.
 O meu pai, com ar de quem desmontou a maior conspiração do mundo, exclamava:
- "Ahhhhh, desse já gostas!!!..."
Recriminação geral. Ele completava:
- "Cabrão!!!... Guloso!!!..."
Já só faltava a fruta. Tarefa impossível, mas que havia que cumprir.
- "Olha-me este sacana, que não gosta de fruta!... Se fosse pudim já comias, guloso de merda!..."
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A parte final do jantar era preenchida com dissertações sobre como os adultos se esfalfavam a trabalhar para eu delapidar o património familiar não comendo pão em quantidade suficiente.
Depois da refeição vinha a exposição detalhada das minhas malfeitorias, e a última sova do dia (a mais espectacular, indubitavelmente), ministrada pelo pater familias. 
Incluía pontapés na cabeça, aplicados com sapatinho mocassin e aquele toque de bola à Eusébio, "mais em jeito do que em força", tão característico do meu pai. A parte mais engraçada era quando ele me atirava pelo ar e eu sobrevoava a mesa da cozinha. 
Como eu era obrigado a passar o dia em imobilidade, aquela sova era  o meu maior exercício diário. Se não dei um bom jogador de futebol (a maior mágoa do meu pai a meu respeito -  e são muitas!) não foi portanto por falta de preparação física.
Cumprida a formalidade, ele saía apressadamente para o café e para as putas.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

A Tampa da Máquina de Costura


Seria talvez 1968. Estavam a passar-se coisas interessantes no mundo - e até mesmo na Rua de Trás - mas eu tinha que ficar todo o dia dentro de casa, "sentadinho, caladinho e quietinho", sob custódia da minha avó.
Tic-tac-tic-tac-tic-tac... fazia o relógio de pêndulo. Mais um minuto.  Tic-tac-tic-tac-tic-tac...- outro minuto. Aquele pêndulo era a minha única distracção. E a cada hora, o grande acontecimento: DONG!... DONG!... DONG!... As badaladas do relógio.
Todos os dias o mesmo, de manhã à noite. A cadeira, a ordem de permanecer imóvel e silencioso, a marquise, o vento sinistro a assobiar lá fora, casuais borrifadelas de chuva nas vidraças, o frio, a roupa de fibra acrílica (que picava), as nuvens negras. 
Num desses dias, quando a minha incorrigível tendência para a estouvadice já dava os primeiros sinais, comecei a olhar para a tampa de madeira da máquina de costura Singer. A minha avó costurava, e tampa estava a um canto, no chão. Um mundo de possibilidades ao alcance da mão.
Maníaco furioso, esgueirei-me silenciosamente da cadeira de estar quietinho e caladinho, e ao cabo de uns 10 minutos já estava sentado em cima da tampa, a imaginar que se tratava de um cavalo e que eu era um cow-boy a cavalgar pelas pradarias. 
Fui trazido do deserto de Sonora para a Estremadura portuguesa numa fracção de segundo, com uma valente lamparina nos olhos, que até me fez ver estrelas de xerife. Sem dar tempo a reflexões, choviam bofetadas e palmadas por todo o corpo, complementadas pela clássica terapia da colher de pau. Primeira sova
Doido e impossível de educar, não tardou aí uma escassa hora que não fizesse novo disparate. Dessa vez, imaginei poder navegar para longe  da eterna marquise usando a tampa da máquina de costura como um barco. Não chegou ao mar alto, a embarcação, afundada por meia dúzia de punhadas certeiras da boa senhora, sempre com  o auxílio da colher de pau. Segunda sova.
Se fossem necessárias provas de que estávamos já perante um delinquente da pior espécie, nessa tarde ainda tentei mais uma vez a sorte na caixa da máquina de costura, fazendo dela uma casota de cão. Sentei-me  lá dentro e comecei a ladrar, feliz. Terceira sova, colher de pau e atirado pelas escadas traseiras, de cimento, até ao rés-do chão. 
Quando cheguei cá abaixo, em vez de chorar comecei a ganir. Não me perguntem porquê.

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sexta-feira, 29 de setembro de 2017

A Colher de Pau


O protagonista principal da minha infância foi a colher de pau. Nada nem ninguém esteve mais presente no meu quotidiano e nas minhas preocupações. Quando percebi que as colheres de pau não serviam apenas para espancar crianças, já devia ter uns 12 anos. E fiquei deveras surpreendido.
A segurar a colher de pau estava a minha avó, 1 metro e 30 de altura, 1 metro e trinta de diâmetro, rubicunda, a rebentar de cólera.  Por tudo e por nada (mas sobretudo por nada) corria para a cozinha e atirava-se à gaveta dos utensílios, emitindo guinchos aterradores. "UIIIIIIIINNN!!! UIIIIIIIINNN!!!" - a raiva que levava era tanta, que não conseguia coordenar os movimentos para abrir a gaveta, desperdiçando as energias a abaná-la violentamente. 
A frustração aumentava-lhe exponencialmente a irritação, de modo que, quando finalmente tinha a colher na mão, vinha num estado tal que não poucas vezes partia a colher. E se a dor causada por uma colher  inteira já é um suplício, imagine-se quando a colher está partida, cheia de bicos afiados e farpas de madeira prontas a incrustarem-se-nos nas nádegas. 
"Mas decerto que o Alexandre era um traquinas, para abalar assim a pobre anciã" -  pensariam os leitores, se eu os tivesse.
Pois na verdade, imaginários leitores, eu nada fazia a não ser mexer-me. Ela insistia que eu ficasse sentado numa cadeira, "caladinho e quietinho". E eu, que passava 8 ou 9 horas por dia sozinho com ela, e era uma criança em idade pré-escolar, tinha alguma dificuldade em ficar sentado e silencioso a filosofar durante um período tão extenso. Mexia-me! E levava. De cada vez que me mexia.
Não quero agora meter-me a psicólogo nem nada que se pareça, mas ainda assim estou convencido de que estas curiosas experiências  terão sido parcialmente responsáveis pelo meu interesse por drogas e auto-destruição em geral.


segunda-feira, 20 de março de 2017

O Dia do Pai


A minha primeira celebração do Dia do Pai foi também a última. Esforcei-me bastante para confeccionar um cartão com pedacinhos de casca de ovo colados com cola Pelikan (que tinha uma tampa castanha com um pelicano em 3D).
Estava com muito receio de não conseguir terminar o projecto a tempo. Trabalhei afincadamente, sob considerável stress, e quando o destinatário chegou a casa, o cartão já estava pronto.  
Levantei-me, cheio de expectativa, corri para a porta, entreguei-lhe o cartão e aguardei a reacção, pois a maior alegria, como se sabe, é de quem oferece, mais do que de quem recebe.
Ele sentiu qualquer coisa na mão, esboçou um breve olhar inexpressivo e atirou o cartão para o chão.
Hoje agradeço-lhe muito esse gesto. Não só me poupou dinheiro e preocupações, como inaugurou uma tradição que me é cara: a de ignorar o Dia do Pai, o Dia da Mãe, o Dia dos Namorados, e os dias comemorativos de coisas em geral. 
Obrigado, papá!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Natação Obrigatória


A seguir à Feira de Agosto era a partida para as férias anuais na praia. Por um lado era bom, porque férias é bom. Por outro lado era mau, por causa das aulas de natação - administradas pelo meu pai.
Método de ensino de natação do meu pai:

- Ele agarrava em mim e eu entrava logo em pânico. Ele, irritado, começava a mergulhar-me violentamente no mar, de cabeça, de modo que me faltava o ar, engolia litradas de água, gritava e suplicava, completamente aterrorizado. 10 segundos, 20 segundos, 30 segundos, o período de permanência forçada debaixo de água, a estrebuchar, ia aumentando. Para eu aprender a nadar, claro. Era a primeira fase.
- Os meus gritos desesperados enervavam-no ainda mais, pelo que passava à segunda fase: atirar-me pelo ar, o mais longe que podia, para dentro da rebentação. Eu tentava sair da água sem que ele me apanhasse. Mas ele esperava, à beira-mar, como um guarda-redes atento, interceptava-me e repetia o processo. O oceano a rugir, as ondas enormes, o turbilhão de água, de areia, o horror. E aquela figura implacável a cortar-me a fuga e sempre a atirar-me lá para dentro. Tudo essencial para uma boa aprendizagem.
- Quando já estava saturado de agarrar em mim e me devolver ao mar, em voo, passava à terceira fase, que consistia em me pontapear e insultar pela praia fora, até à barraca.

Encolhido a um canto, em choque, eu tremia e chorava convulsivamente, enquanto ele gritava toda a sorte de impropérios e me acusava de ser a causa de todas as desgraças da vida dele. A minha mãe lamentava o meu mau feitio e a minha obstinação em não querer aprender a nadar.
Mas não se pense que este processo quiçá um bocadinho demasiado vigoroso foi o único utilizado nas dedicadas tentativas de me ensinar a nadar, para eu ser um homem.  Nada disso! De uma vez em que ele estava bem disposto, a puxar sofregamente o fumo do SG Gigante à beira-mar, chamou-me e tentou uma abordagem psicológica:

"Porque é que tens medo do mar, pá? O mar não tem olhos! Não tem braços! Não tem pernas!"

Com esta extraordinária revelação, nem sei como é que não me atirei imediatamente à água e não atravessei logo o Atlântico Norte a nado, para ir abraçar a Estátua da Liberdade!  
E continuou:

"Tás a ver aquelas gajas ali?" - e apontou um grupo de raparigas e senhoras que se banhavam -  "Tu tens medo do mar e elas não têm. E tu tens picha e elas têm pá!...".


Nessa época, e apesar da Primavera Marcelista, os conhecimentos de anatomia permitidos às crianças eram assaz limitados, e se uma pergunta sobre os pulmões ou o fígado era vista como sinal de inteligência e de um futuro brilhante como médico, uma pergunta sobre a anatomia dos órgãos sexuais era logo premiada com uma valente bofetada.
De modo que eu não sabia praticamente nada sobre essas coisas. Depreendi que "pá" seria o equivalente feminino à "picha" dos rapazes. Fiquei intensamente confuso ante a ideia de que as meninas e as senhoras possuíam uma pá onde nós temos a "picha"! 
O meu irmão tinha uma pá de praia, de plástico verde, e imaginei imediatamente uma no interior das cuecas femininas. Olhei para o grupo de banhistas e fiquei admirado por não se notar nada. 
Durante alguns anos, esse enigma perseguiu-me, e confesso que foi com surpresa que um dia, quando a Rosarinho despiu a parte de baixo do bikini, não encontrei lá uma pazinha de plástico verde.


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O Chapéu Cinzento da Feira de Agosto


Nos primeiros dias de Agosto íamos sempre à Feira de Agosto em romaria familiar. Não íamos logo no dia 1 porque o meu pai tinha que se preparar para o choque anafilático de ter que gastar dinheiro. A feira ficava situada no Largo da Feira (o que parece não ser muito entusiasmante, mas era). 
As primeiras barracas eram de roupas, sapatos, utilidades para o lar, discos de 45 rotações, plásticos, gaitas de beiços e outros artigos que o meu pai conseguia que não comprássemos. No entanto, lá no alto, ficavam as diversões, e, com dois filhos, isso significava  ter que desembolsar.
Eu ia todo contente, aquilo era pura magia e um dos pontos altos do ano. Para o meu pai, era uma das obrigações familiares mais penosas do ano. Aos primeiros vislumbras das luzes dos carroceis e dos carrinhos de choque, começava dentro dele uma batalha sem solução. Não queria ser forreta, mas doía-lhe a alma por ter que gastar dinheiro numa merda que durava uns minutos e acabava logo. Por isso, e com a praia à porta, acedeu à sugestão da minha mãe, de comprar dois chapéus de lona cinzentos, que, com as abas para cima pareciam dois chapéus de cow-boy. Um para ele, outro para mim (e para o meu irmão mais novo, que ainda era um bebé, um chapelinho de palha). E lá íamos nós, de chapéus novos, à cow-boy, a passear pela feira, como uns idiotas.
Mal refeito estava ele do choque da  aquisição de dois chapéus e meio que haviam de durar séculos, eis que eu manifesto vontade de andar de carrinhos de choque. Ele ia caindo de cu, para usar uma expressão que lhe é cara. Então, depois de um investimento tão arrojado, eu queria ir logo esbanjar mais dinheiro?! Ingrato de merda que eu sou!


Instado pela diplomacia de emergência da minha mãe, lá acedeu, com a escuridão na alma. Eu precipitei-me para a pista e preparei-me para gozar a inesquecível aventura anual da vertigem do perigo e da velocidade.
Era daquelas pistas antigas, com uma placa central, em que os carros andavam todos à volta, no mesmo sentido. Infelizmente, uns carros eram mais rápidos que outros, e, com a minha habitual falta de sorte, calhou-me um carro muito lento. A primeira pancada na traseira - brutal - provocou-me a hiperextensão do pescoço, uma dor aguda, eléctrica, na coluna, e, muito pior, fez com que o chapéu de lona cinzento me voasse da cabeça e fosse aterrar na pista! 
Os outros foliões ficaram obviamente deliciados, com as lesões na minha coluna e com o chapéu que estava agora ali à sua mercê, para destruírem. O meu pai dava saltos, à beira da pista, e tentava salvar o mais importante: o chapéu. Mas o fluxo raivoso dos carrinhos fazia-o recuar. 
O chapéu ia sendo atropelado pelos bólides, tripulados por sádicos às gargalhadas, que não sabiam se haviam de rir mais com o puto que chorava, todo partido, se com o pai do puto a tentar apanhar o chapéu, se com o chapéu, que por essa altura já estava todo esfarrapado e todo negro do óleo dos carrinhos e da pista. Tudo isto ao som da Canção do Motorista, de Nilton César (1), acabada de sair. Uma barrigada de diversão! 


Assim que a volta acabou, e antes do "Nooooooova Corrrrrrriiiiida, Nooooooooova Viaaaageeeemmmm...", o meu pai precipitou-se sobre o chapéu, e, perante a gargalhada geral, arrancou-me do carro e enfiou-mo violentamente pela cabeça abaixo.
E até casa, foi sempre assim: 
1 . Gritaria e acusações de eu ser um merdas que deixa cair o chapéu
2. Corrida furiosa na minha direcção, a rugir
3. Chuto no rabo com toda a força 
4. O chapéu a saltar-me da cabeça e aterrar na estrada
5. Ele a apanhá-lo e a enfiar-mo na cabeça outra vez, em salto, de modo que eu ficava com o chapéu enfiado até ao nariz!
6. Ele via-me com o chapéu rasgado e cheio de óleo, todo enfiado na cabeça, sem ver nada, a caminhar sem sentido e a chorar baba e ranho, e enfurecia-se ainda mais
7. Repetia todo o processo 

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Foi nesse dia que comecei a sofrer das costas. Depois a minha mãe lavou o chapéu, consertou-o muito bem, e ficou quase como novo. Ainda o usei durante muitos anos. De cada vez que me via com o chapéu, o meu pai revivia todo o episódio e lançava-me duras acusações. 

(1)

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Já Partes Tranquilo

Aos domingos e feriados o meu pai levantava-se pelas 10 horas, saía do quarto com um cigarro na boca, um penico cheio de mijo amarelo escuro numa mão, e um mini rádio na outra. Ia para a casa de banho fazer a barba, fumar e ouvir fadinhos p'ra quem trabalha. Na manhã de Natal era diferente.  

Pelas 7 da manhã já eu e o meu irmão estávamos a salivar, para entrar na cozinha e ver se o Menino Jesus tinha realmente lá passado. A porta estava sempre fechada à chave, é claro. É que era a ocasião mais fabulosa do ano, e só podíamos desfrutá-la com a presença do meu pai.

Ele, por sua vez, no dia de Natal fazia gala em dormir até à 1 da tarde. Era uma tortura, esperar mais de 6 horas, em jejum, com frio, até que  porta mágica abrisse.

Tocava a sirene dos bombeiros ao meio-dia e já começávamos a ficar um bocadinho mais animados. Passada uma hora, e sob grande insistência da minha mãe, ele lá acabava por sair, a resmungar coisas sobre a morte e a sina.

Quando aquela porta se abria, era mesmo o momento alto do ano. A minha mãe ia tentando fazê-lo interessar-se pela nossa alegria com os presentes trazidos pelo Menino Jesus, enquanto ele deixava escapar "acidentalmente" comentários sobre a respectiva compra na loja, a garantia, etc..

Depois aparecia a minha avó, que vinha da missa, a dizer "Aleluia! Aleluia!", e ele soltava uma espécie de grunhido de escárnio: "NHÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃ...". 

A cada presente que abria, exclamava com um entusiasmo ostensivamente fingido: "EEEEEEHHHHHHH!!!...".

E fazia ligações entre cada presente e a morte:

"Olha, uma gravata... É pena não ser preta, para levar aos funerais...".

"Olha, uma garrafa de whisky... Já não a vou beber, porque vou morrer...".

"Olha, uns sapatos... Para eu levar quando morrer...".

Coitado, foi atingido por esse problema médico assaz raro: ser mortal.

Uma vez, já  a abertura dos presentes ia longa, quando abriu um volumoso embrulho contendo um roupão.

Na falta de melhor ligação entre um roupão e a morte, apontou para  a etiqueta, da marca JPT, e exclamou:

"Já Partes Tranquilo!".

O que nos rimos...




quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Natal - O Estojo de Química


Um "cientista" acaba de receber o seu estojo de Química, pelo Natal. 

Quando eu era miúdo não havia cá subculturas juvenis nenhumas. Os miúdos eram miúdos e mais nada. Faziam o que os pais mandavam, vestiam o que os pais lhes davam, jogavam à bola e à carica, levavam porrada, iam à catequese, tomavam banho e mudavam de cuecas e de peúgas uma vez por semana,  e pronto.
Se algum desejo de identidade havia, não era pelo que eram, mas pelo que desejavam ser. Os miúdos urbanos dividiam-se em dois grupos: os filhos de pessoas que tinham a 3ª classe, na melhor das hipóteses, e os filhos de gente que sabia ler e escrever.
Os filhos das pessoas que não sabiam ler e escrever muito bem, queriam todos ser "j'gadores"(futebolistas), quando crescessem. Os filhos das pessoas que sabiam ler e escrever sem erros, queriam todos ser "cientistas", quando crescessem.
Havia alguns matizes nesta classificação, mas, quer se tratasse de uma grande cidade, quer se tratasse de uma vila de interior, como a minha, as coisas eram, em traços largos, assim.
No meio rural, que era paredes meias com o meu, não tenho vivências suficientes para me pronunciar com autoridade. Imagino que quisessem ser todos bêbados e caçadores.


 Um estojo de Química igualzinho ao que recebi!

Lá em casa não éramos de grandes despesas, nem ninguém era, na altura, mesmo quem tinha mais daquilo a que hoje se chama poder de compra. Mas se a coisa apertava um bocadinho durante o ano, o Natal lá em casa era apoteótico. Havia presentes bons e o Cabaz do Natal Normal, que ficava entre o Popular e o De Luxo (sempre com veementes protestos do meu pai, que, quanto muito, admitiria o Popular).
Só por causa da nossa tradição do Natal mais à larga me abalancei a pedir o sonho de qualquer "cientista": um estojo de Química.
Durante o ano, o meu pai teria imediatamente batido com a cabeça e os pés no tecto, alternadamente, lançando-me a bomba atómica das suas acusações, o pior crime de todos: ter a mania de ser rico!
Ele não dizia: "Tens a mania que és rico!...". Dizia: "Tens a mania que é' rrrrrrrico!...", com o rrrrrrr pronunciado como na palavra "areia", mas muito, muito, muito, arrastado. Toda a expressão era pronunciada em estilo teatro de revista, a travar, a repenicar.
Suspeito de que, na escala de insultos dele, ter a mania de que se é rico fosse ainda pior do que  ser "invertido". Pelo menos, as acusações de que eu era "invertido", por não gostar de futebol, nunca me puseram a chorar. Mas quando exprimi compaixão pelos miúdos que andavam descalços, fui envergonhado até às lágrimas, por me ter atrevido a sugerir que havia gente mais pobre que nós - e que assim sendo, nós seriamos de alguma forma, mai' rrrrrrrrrrrrricos que alguns seres humanos.



O interior do Thomas Salter Chemistry 4. 


Na manhã de Natal lá estava o presente ambicionado, um estojo de Química, o Chemistry 6, da prestigiada Thomas Salter.
Fiquei esfuziante, fiquei delirante, senti-me o rapaz mais sortudo do Mundo, senti-me um cientista a sério. As palavras em Inglês que ornavam o conjunto de Química, o ar sofisticado daquilo tudo, fizeram-me sentir que passara a pertencer à elite, aos meandros da Ciência. Foi como se tivesse sido admitido na NASA.
Não me atrevi a abri-lo. Lá em casa as coisas tinham um determinado ritmo. Abrir um presente era tirar cuidadosamente o papel de fantasia que o envolvia. Agora quanto a abri-lo mesmo, isso já era outra história.
Se fosse muito precipitado, se manifestasse demasiada alegria, se não pedisse as devidas autorizações e se não respeitasse o intervalo de morigeração de alguns dias antes de abrir a caixa, seria acusado de ser doido, sôfrego, ingrato, e ser-me-iam vaticinadas muitas desgraças na vida, por via desses defeitos.

 O meu Chemistry 6 era assim por dentro.
 
Bem sabia que não podia abrir logo o presente, "estragá-lo" logo, demonstrar baixos instintos, irresponsabilidade e loucura. Queria, contudo, pelo menos estar com ele nas mãos, mirá-lo de todos os ângulos, deleitar-me com a embalagem, cheirá-lo, e sonhar, naquela manhã de Natal.
Mas a minha mãe e o meu pai começaram a trocar olhares cúmplices, o que me fez logo suspeitar de que havia coisa combinada. E havia.
"Vai ao teu pai...", disse a minha mãe, misteriosamente. Com o seu melhor ar de pai clássico e afável, o meu pai chamou-me. "Anda cá, rrrrrrrapaz... Ah, ah, ah...", disse ele, com um sorriso assaz inquietante de hiena e uma simpatia radioactiva, que me puseram logo a tremer da cabeça aos pés. Preparei-me para o pior...
E tinha razões para isso. "Tu sabes" - começou ele - "que eu e a tua mãe fazemos sacrifícios...". Etc., etc., até aqui já era território conhecido. Cada alegria, cada prazer, tinham sempre que ser compensados com uma dose generosa de culpa. Mas a conversa seguiu uma inesperada direcção, de cunho, digamos, científico...


Química.

Era um estojo de QUÍMICA. Talvez ele estivesse apenas furioso por eu não ter pedido antes uma bola de futebol, ou talvez para ele Química só pudesse significar explosões, mas as cenas projectadas no ecrã imaginário que ele desdobrou, mostravam-me a mim, um psicopata criminoso, a gargalhar diabolicamente, com os olhos totalmente vermelhos de sangue, a fazer "asneira" (a única coisa que eu sabia fazer) e, inevitavelmente, a mandar a casa pelos ares.
Era "óbvio" que, agora que eu tinha o almejado (e caro!) estojo de Química, a minha estupidez lendária e incurável e a minha malvadez endémica e inextirpável, só poderiam resultar numa explosão atroz, numa casa reduzida a escombros fumegantes, e numa família toda morta.
Em menos de 1 minuto, a pose de pai amigo com sorriso afável, deu lugar ao espumar pela boca, ao espernear, aos gritos desalmados, aos saltos em prancha, à tentativa desesperada de me apanhar para me escovar o pelo (por essa altura eu já estava escondido debaixo de uma mesa, aterrado).
"CABRÃO!!! BANDALHO!!! MALDITA A HORA EM QUE EU COMPREI ESSA MERDA!!!" - berrava ele, em fúria.

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A minha mãe e a minha avó, como de costume, à força de se pendurarem nele, conseguiram, não direi acalmá-lo, o que seria uma contradição em termos, mas fazê-lo regressar ao estado habitual.
Obviamente que o estojo de Química foi escondido durante alguns anos. Mas tive mais sorte com ele do que com outros brinquedos. O estojo ainda me foi dado, com a garantia expressa de jamais usar a lamparina, de ter muito juízo, etc., etc., admoestações, ameaças, já que caiu sobre a família a desgraça da minha existência, ao menos que não matasse toda a gente lá em casa, etc., etc..
O comboio eléctrico que uns tios me ofereceram e umas fabulosas pistolas de cow-boy, com cinturão e estrela de xerife, nunca lhes toquei sequer. Eram brinquedos mal empregados para mos darem para eu brincar com eles. Esconderam-nos tão bem que nunca mais os encontraram.




sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Delícias e Mistérios do Advento


O Natal em nossa casa era sempre a época mais aguardada do ano. Árvore de Natal, Presépio, Cabaz do Natal, presentes de Natal, Ceia de Natal. Ah... o Natal!... 
O presépio e a árvore eram montados pontualmente no dia 1º de Dezembro, sob a direcção da nossa mãe e com a permissão da nossa mãe, responsável pela calendarizações festivas e por tudo o resto lá em casa.
O meu pai entrava automaticamente em modo natalício, que se traduzia no redobrar das imprecações às despesas, às fantochadas da Igreja, e à amargura inerente à vida em geral.
Um dos pontos de honra natalícios do meu pai era estilhaçar o pináculo da magia do Natal, a saber, a tradição de que o Menino Jesus trazia os presentes. O Pai Natal era ainda um ilustre desconhecido. 
Sob o permanentemente arregalar de olhos da nossa mãe, a fazer sinal para que se calasse, o meu pai resmungava "casualmente" coisas dispersas sobre as compras dos presentes de Natal, interrogava a minha mãe se já as tinha escondido em cima do guarda-fatos, verberava toda a maçada da tradição dos presentes e lamentava-se de ser pobre e não poder oferecê-los melhores e mais caros.
Nos anos 60 e 70, só os comunistas barbudos, leitores de livros, fumadores de cachimbo e jogadores de xadrez, amargos e cheios de ódio a tudo e a todos, se atreviam a não mandar os filhos à catequese e a rebentar-lhes logo com o Natal e com a infância, anunciando-lhes que o Menino Jesus não existia. 
As pessoas normais de classe média mantinham a conspiração do Menino Jesus até que os filhos tivessem 16 anos, mais ou menos. 
No pátio da escola, lá pela quarta classe, havia alguns repetentes, burros, de bota grossa e murro fácil, que se reuniam em círculos confidenciais e diziam que não é o Menino Jesus que mete as prendas, é os pais, com aquele ar arrogante e fora-da-lei de gajos que levam com o cinto do pai e com a chinela da mãe pelo menos uma vez por semana. E com natural desprezo pelas massas de miúdos que ainda viviam na ignorância.
Era uma grande honra ser-se admitido nesse Comboio dos Duros, que já não acreditavam no Menino Jesus. Mas lá em casa, à noite, com as luzinhas a piscarem na Árvore de Natal, com as figurinhas do Presépio sobre o musgo carinhosamente recolhido, com os patinhos de barro a nadarem sobre o espelho minuciosamente disfarçado com areia, as nossas convicções vacilavam. E decidíamos que afinal o Menino Jesus existia. 
Para o meu pai, não poder dizer A VERDADE abertamente, era um aliciante extra. Deixar a prole em lágrimas comunicando-lhes que na noite de 24 de Dezembro afinal não havia um bebé alado  a descer pelas chaminés de todo o Mundo (até do Cartaxo e Calçada de Carriche!), para o carácter dele, seria demasiado fácil. Seria como o Benfica estar a ganhar 10 a zero ao Oriental, e o guarda-redes desmaiar quando o Eusébio se preparava para rematar. O Eusébio não remataria. O meu pai não rematava.
Ele sempre foi mestre na arte da dissimulação, e daquilo que, já adulto, vim a saber que se chama a passivo-agressividade. Hoje percebo todo o gozo e o jogo maravilhoso que era para ele, poder torturar a família toda na época mais sagrada e mais mágica do ano. 
A mim não me importava muito. Assim como assim, na escola já me tinham contado outra história. Era pelo meu irmão pequenino. Não havia no Mundo inteiro ninguém mais importante, que eu estimasse e protegesse mais, que o meu irmão pequenino. Por isso afastava-o do centro do furacão, distraía-o, resguardava-o daquele vento agreste que secava toda a felicidade e alegria, que intoxicava a alma, como os rolos de fumo azulado do SG Gigante permanentemente aceso.
A Noite de Natal também era divertida, com ele a blasfemar à Missa do Galo, transmitida em directo do Vaticano, aos padres, aos bispos, aos cardeais, ao Papa. Na catequese diziam-me que o Papa era o representante de Deus na Terra. Diziam-me também que devia honrar pai e mãe. E depois o meu pai desatava a insultar o Papa - e portanto a insultar Deus...  Eu não conseguia compaginar tão controversa teologia. 
"Olha... lá vem a seita..." - rosnava ele, quando os prelados, todos de chapéu bicudo e turíbulo a fumegar de incenso, avançavam pela ala central da Igreja de São Pedro. A minha mãe também fumegava. E ele, no seu melhor estilo de bombeiro incendiário, protestava a sua inocência: "Mas é assim que se chama! É a seita! Estes gajos, com aquelas saias e aqueles chapéus, com aquelas cruzes na mão, é mesmo assim que se chamam, podes perguntar ao padre, Clarinha! É a seita! A seita!". E ria-se, discretamente, mas de forma a que se percebesse que se ria. 
"A seita!", repetia a espaços, ao longo da noite, a rir-se, enquanto bebia champanhe e Vinho do Porto, e lamentava estar a abrir umas garrafinhas tão boas e tão caras.
No meio destes e de tantos outros formidáveis sucessos, um gajo mais inteligente e mais sensível, poderia ter vindo a ser um artista, um psicopata ou um gay. Talvez mesmo um artista psicopata e gay. Qualquer coisa assim glamourosa. Eu só consegui ser parvo.
E havia bacalhau com batatas e filhós de cenoura. E patinhas douradas - uma especialidade que a Tia Milú ensinou à nossa mãe, e que eu considerava, e ainda considero, um manjar celestial, o doce definitivo e inultrapassável, a materialização doce do espírito natalício e do amor materno. Porque afinal, Natal significa nascimento, sem maternidade não há nascimento, e a nossa mãe chama-se Maria, como todas as mulheres portuguesas.
Este postal natalício é-lhe dedicado, mas nunca lho mostrarei. 

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Sarita


Era Verão, a noite estava quente, corria uma brisa leve, adocicada de madressilvas, eu já tinha alguma pilosidade e musculatura e estava invulgarmente bem-disposto e confiante.
Tinha 14 anos feitos há pouco, e ela era apenas um dia mais velha. Quando voltei a vê-la, senti logo uma espécie de broca a perfurar do lado esquerdo do peito, por baixo das costelas. "Mas que raio é isto?" - pensei. 
Sei que naquela noite de Verão, em que havia baile, sob os arvoredos frondosos do jardim municipal, tinha que acabar com aquela escavação peitoral e mergulhar nos olhos dela.  
Ela tinha o cabelo escuro, muito escorrido, traços japoneses que herdara do avô, uns olhos de azeviche, grandes e doces, uma figura delgada, e uma expressão levemente azougada, que ia tão bem com as sardas. Não me parecia, para ser inteiramente honesto, que houvesse coisa mais graciosa no Mundo, naquela cálida noite de Verão. 
De maneiras que, mesmo sem saber dançar, fui convidá-la. O conjunto era bastante bom. Tudo o que tocava soava bem. E naquele momento não havia mais nada no mundo. Apenas a felicidade de estar a dançar com ela, numa noite de Verão, embalados pela música, flutuando no aroma das madressilvas. 
Demos o primeiro beijo ao som do “Junto à Lareira”, do José Cid.  
E o resto o que terá sido? A certeza de que nos encontráramos finalmente, de que o mundo era a concha amável que nos abrigava e nos ofertava generosamente só venturas. À nossa frente apenas uma alegria que as palavras não contam, praias sem fim, noites estreladas, um ao outro.  
De sorte que a partir daí passei a sair mais, para me encontrar com ela. O que conclamou sobre o meu pai as omnipresentes nuvens negras da suspeita. Sendo ponto assente que eu, não tendo habilidade para jogar futebol, só poderia ser, obviamente, um invertido, era mais que certo que as minhas ausências se deveriam a actividades anais. 
Era uma certeza, como tudo o que passa pela cabeça infalível do meu pai. Tratava-se apenas de a confirmar. Pelo que tratou de me apertar, até eu ceder. Apertar com as pessoas foi sempre um dos seus melhores talentos. Entre a espada e a parede, lá confessei que me ia encontrar com a Sarita.  
E confesso que ainda tive um lampejo de esperança de que iria receber dele, finalmente, uma palavra de aprovação, em vez das amargas recriminações que pontuavam todas e cada uma das minhas acções. Esperava, se não um sorriso, pelo menos um suspiro de alívio. Porque, afinal, não era invertido, e porque, como se tal não bastara, ainda por cima namorava uma rapariga tão bonita (a mais bonita do mundo, na verdade).  
Ele, impassível, disparou: 
- "Quem? A filha do Manel, do Registo Civil?". 
Aquela identificação tão prosaica não me caiu nada bem. Reduzir assim uma estrela cristalina à "filha de Fulano", magoou-me. Mas assenti, esperançoso:  
- "Sim, a Sarita".  
 Admitamos que ele esteve à altura dos seus pergaminhos na resposta que me deu:  
- "Foda-se! O raio da miúda, nem parece que foi parida! Parece que foi cagada!".

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A Sarita e eu acabámos por não casar um com o outro. Mas ainda hoje somos grandes amigos. Tivesse eu casado com ela, juro que lhe mostrava o vídeo de cada parto, para ele ficar ciente de que os netos não tinham nascido pelo cu.


domingo, 23 de outubro de 2016

O Teste do Casamento


O meu pai movia-se com à vontade nos complexos meandros da Psicologia.

O meu pai sempre foi um psicólogo amador de grande engenho. E muito independente; o método científico dizia-lhe pouco.
Um dos testes mais bem sucedidos consistiu em perguntar-me, numa ocasião em que seguíamos os dois de carro sozinhos, à noite, se eu pensava casar. Já habituado aos seus métodos pouco ortodoxos, fiquei deveras angustiado.
Decidi-me por uma resposta prudente, em consonância com os valores sociais aceites. Conhecendo-lhe alguma postura conservadora (vide por exemplo as afamadas Jornadas de Prevenção da Homossexualidade), achei por bem demarcar-me de uma posição ambígua que pudesse ser confundida com a de um abominável invertido, e resolvi crescer, multiplicar-me, e encher a Terra.
Mais ou menos isto:


Mais ou menos o que tinha em casa, o que ele tinha feito. Não havia que errar, pensei. E arrisquei:
- "Sim".
Fui escarnecido sem dó nem piedade, bombardeado com uma chuva de gargalhadas sardónicas, humilhado até aos confins da alma.
- "Nem sei como é que podes ser meu filho! Deves ter sido trocado na maternidade, ó o caralho! Otário de merda! Atão tu não vês que se um gajo se casa tem sempre a mesma mulher, e se fica solteiro pode ter as que quiser, sempre diferentes, pá?!".
Fiz beicinho e virei-me para a janela, para esconder as lágrimas. 
Tempos depois, lá em casa, chamou-me, com o seu habitual sorriso afectuoso que precedia as grandes tempestades, e voltou a fazer a mesma pergunta:
- "Então?... Quando fores crescido, queres casar ou ficar solteiro?".
Desta vez já não ia cair - pensei - e, com um ar triunfante, preparei-me para dar a resposta mágica e colher os meus louros. Ainda que todo o meu ser se contraísse ante a perspectiva de ser um fornicador compulsivo vitalício, disparei:
- "Não!".
E ele, cúmplice, com um sorriso encorajador:
- "Ai não?... Porquê?...".
 E eu, todo lampeiro, repeti-lhe a lição:
- "Porque se casar tenho sempre a mesma mulher, e se ficar solteiro posso ter as que quiser, sempre diferentes!".
Mais ou menos isto:


Tomado de uma acesso de loucura, deu um salto e correu a chamar a minha mãe, para lhe dar as más novas da desgraça que se abatera sobre a família:
- "Ó CLARINHA!!!! Ó CLARINHA!!!! ANDA CÁ VER ISTO!!! NEM QUEIRAS SABER O QUE ESTE CABRÃO DISSE!!! ANDAMOS AQUI A CRIAR UM SACANA!!! ESTE BANDALHO DE MERDA ENGANOU-NOS BEM!!!".
Foi um alvoroço. A minha pobre mãe ficou de coração partido e eu ainda estou envergonhado. E nunca consegui passar em nenhum teste.

P.S. - E o mais transcendente nisto tudo, é a circunstância de o nosso psicanalista profundo ser, ele mesmo, um fornicador compulsivo vitalício; e ser casado. Penso que é esta a distância que separa os génios como ele dos broncos como eu.