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quinta-feira, 6 de outubro de 2016

O Próprio Sol

"Ó tempo, volta p'ra trás". Uma cantiga omnipresente na Rádio, nos tempos da Rádio, nos meus tempos de criança. Causou-me alguns dissabores.
A coisa começava logo com uma proclamação ao mesmo tempo tranquilizadora e inquietante: "A Severa foi-se embora...".

Tranquilizadora, porque ela tinha ido embora, e, sendo severa, isso era ganho. Inquietante, porque nada nos garantia que ela não voltasse inopinadamente.
De cada vez que o António Mourão soltava o seu proverbial relincho no começo da cantiga, eu estremecia. Com desalento, constatava que o meu débil corpo de 6 anos ainda não estava pronto para ir combater os turras para o Ultramar. Ao menos lá - pensava eu - a Severa não haveria de se lembrar de ir.

Toda a canção levantava numerosas questões. Só um verso era claro: "Vê que até o próprio Sol, volta todas as manhãs".
Não havia que enganar. O rapaz da mercearia que andava a cobrar contas de porta em porta (e que viria na década seguinte a conhecer a consagração como um dos maiores tarados sexuais da Região Centro), comparecia pontualmente para namorar a empregada, a Isabel - todas as manhãs. Era ele o próprio Sol.

Ao jantar, eu referia às vezes que o próprio Sol tinha aparecido lá em casa de manhã. Com mais uma colher de óleo de fígado de bacalhau e duas bofetadas (panaceia universal) os meus pais esperavam minorar a demência de que eu era sem dúvida portador.

Nunca compreendi o desalento do meu, pai, que levava as mãos à cabeça, derrotado, de cada vez que eu fazia tal declaração. Acho que foi por isso que o meu irmão mais novo nasceu. Ele queria ter a certeza de que era capaz de fabricar um filho normal.

Um dia, estava a jogar à bola com os amigos na rua de trás, quando deparei com uma cena assaz bizarra: o próprio Sol, com as costas e um dos pés apoiados num muro, a mão à volta da cintura da Isabel, e o que me pareceu ser um tronco, ou uma mangueira, dentro das calças, que lhe chegava quase ao joelho.

Quando, ao jantar, referi o insólito acontecimento, não só tomei óleo de fígado de bacalhau extra, como tive direito a uma dose suplementar de bofetadas.

Mistérios. Sempre mistérios.

E ainda hoje fico um bocado inquieto quando ouço o António Mourão.

domingo, 26 de junho de 2016

Fadinhos p'ra quem trabalha


Como qualquer cidadão masculino de classe média da sua geração, um dos passatempos preferidos do meu pai era estar deitado na cama, a fumar, a preencher o totobola e a ouvir telefonia.

Mas depois do 25 de Abril começaram os problemas. A música nem sempre era a da sua preferência. Consequentemente, em vez de pegar no telefone e reclamar para a Emissora Nacional ou para o Rádio Clube Português, preferia agarrar no aparelho e dirigir-se ao meu quarto, a fazer de velhinho, a cambalear, a coxear e a tropeçar, em consonância com o papel.

Se eu já estivesse a dormir, melhor ainda. Metia a cabecinha de lado, fazia uma expressão infeliz e desgraçadinha, como se fosse um servo da gleba perante um poderoso e austero senhor feudal, encolhia os ombros, mostrava-me a telefonia, e dizia: 

- Podiam dar fadinhos... (mais ares de infelicidade) p'ra quem trabalha... p'ra quem trabalha...

E afastava-se, a cambalear, a coxear e a tropeçar.

Sendo que eu era um miúdo e não o dono de nenhuma emissora de rádio, ficava a pensar porque é que ele me vinha pedir os tais fadinhos p'ra quem trabalha.

Tinha que me levantar muito cedo para apanhar o comboio para ir para o liceu - ele dizia sempre para eu estudar, para ser "alguém", de modo a poder alcançar a plenitude da existência: "bater charuto".

Ora se eu queria cumprir a vontade paterna de vir um dia a honrar a família batendo charuto, como podia ao mesmo tempo deixar os estudos e ir trabalhar, para assim partilhar o fardo de a telefonia não transmitir a quantidade aceitável de fadinhos?
Tudo isto me fazia perder o sono.