"Ó tempo, volta p'ra trás". Uma cantiga omnipresente na Rádio, nos tempos da Rádio, nos meus tempos de criança. Causou-me alguns dissabores.
A coisa começava logo com uma proclamação ao mesmo tempo tranquilizadora e inquietante: "A Severa foi-se embora...".
Tranquilizadora, porque ela tinha ido embora, e, sendo severa, isso era ganho. Inquietante, porque nada nos garantia que ela não voltasse inopinadamente.
De cada vez que o António Mourão soltava o seu proverbial relincho no começo da cantiga, eu estremecia. Com desalento, constatava que o meu débil corpo de 6 anos ainda não estava pronto para ir combater os turras para o Ultramar. Ao menos lá - pensava eu - a Severa não haveria de se lembrar de ir.
Toda a canção levantava numerosas questões. Só um verso era claro: "Vê que até o próprio Sol, volta todas as manhãs".
Não havia que enganar. O rapaz da mercearia que andava a cobrar contas de porta em porta (e que viria na década seguinte a conhecer a consagração como um dos maiores tarados sexuais da Região Centro), comparecia pontualmente para namorar a empregada, a Isabel - todas as manhãs. Era ele o próprio Sol.
Ao jantar, eu referia às vezes que o próprio Sol tinha aparecido lá em casa de manhã. Com mais uma colher de óleo de fígado de bacalhau e duas bofetadas (panaceia universal) os meus pais esperavam minorar a demência de que eu era sem dúvida portador.
Nunca compreendi o desalento do meu, pai, que levava as mãos à cabeça, derrotado, de cada vez que eu fazia tal declaração. Acho que foi por isso que o meu irmão mais novo nasceu. Ele queria ter a certeza de que era capaz de fabricar um filho normal.
Um dia, estava a jogar à bola com os amigos na rua de trás, quando deparei com uma cena assaz bizarra: o próprio Sol, com as costas e um dos pés apoiados num muro, a mão à volta da cintura da Isabel,e o que me pareceu ser um tronco, ou uma mangueira, dentro das calças, que lhe chegava quase ao joelho.
Quando, ao jantar, referi o insólito acontecimento, não só tomei óleo de fígado de bacalhau extra, como tive direito a uma dose suplementar de bofetadas.
Mistérios. Sempre mistérios.
E ainda hoje fico um bocado inquieto quando ouço o António Mourão.
Como qualquer cidadão masculino de classe média da sua geração, um dos passatempos preferidos do meu pai era estar deitado na cama, a fumar, a preencher o totobola e a ouvir telefonia.
Mas depois do 25 de Abril começaram os problemas. A música nem sempre era a da sua preferência. Consequentemente, em vez de pegar no telefone e reclamar para a Emissora Nacional ou para o Rádio Clube Português, preferia agarrar no aparelho e dirigir-se ao meu quarto, a fazer de velhinho, a cambalear, a coxear e a tropeçar, em consonância com o papel.
Se eu já estivesse a dormir, melhor ainda. Metia a cabecinha de lado, fazia uma expressão infeliz e desgraçadinha, como se fosse um servo da gleba perante um poderoso e austero senhor feudal, encolhia os ombros, mostrava-me a telefonia, e dizia:
- Podiam dar fadinhos...(mais ares de infelicidade) p'ra quem trabalha... p'ra quem trabalha...
E afastava-se, a cambalear, a coxear e a tropeçar.
Sendo que eu era um miúdo e não o dono de nenhuma emissora de rádio, ficava a pensar porque é que ele me vinha pedir os tais fadinhos p'ra quem trabalha.
Tinha que me levantar muito cedo para apanhar o comboio para ir para o liceu - ele dizia sempre para eu estudar, para ser "alguém", de modo a poder alcançar a plenitude da existência: "bater charuto".
Ora se eu queria cumprir a vontade paterna de vir um dia a honrar a família batendo charuto, como podia ao mesmo tempo deixar os estudos e ir trabalhar, para assim partilhar o fardo de a telefonia não transmitir a quantidade aceitável de fadinhos?