segunda-feira, 20 de março de 2017

O Dia do Pai


A minha primeira celebração do Dia do Pai foi também a última. Esforcei-me bastante para confeccionar um cartão com pedacinhos de casca de ovo colados com cola Pelikan (que tinha uma tampa castanha com um pelicano em 3D).
Estava com muito receio de não conseguir terminar o projecto a tempo. Trabalhei afincadamente, sob considerável stress, e quando o destinatário chegou a casa, o cartão já estava pronto.  
Levantei-me, cheio de expectativa, corri para a porta, entreguei-lhe o cartão e aguardei a reacção, pois a maior alegria, como se sabe, é de quem oferece, mais do que de quem recebe.
Ele sentiu qualquer coisa na mão, esboçou um breve olhar inexpressivo e atirou o cartão para o chão.
Hoje agradeço-lhe muito esse gesto. Não só me poupou dinheiro e preocupações, como inaugurou uma tradição que me é cara: a de ignorar o Dia do Pai, o Dia da Mãe, o Dia dos Namorados, e os dias comemorativos de coisas em geral. 
Obrigado, papá!

quinta-feira, 9 de março de 2017

Natação Obrigatória


A seguir à Feira de Agosto era a partida para as férias anuais na praia. Por um lado era bom, porque férias é bom. Por outro lado era mau, por causa das aulas de natação - administradas pelo meu pai.
Método de ensino de natação do meu pai:

- Ele agarrava em mim e eu entrava logo em pânico. Ele, irritado, começava a mergulhar-me violentamente no mar, de cabeça, de modo que me faltava o ar, engolia litradas de água, gritava e suplicava, completamente aterrorizado. 10 segundos, 20 segundos, 30 segundos, o período de permanência forçada debaixo de água, a estrebuchar, ia aumentando. Para eu aprender a nadar, claro. Era a primeira fase.
- Os meus gritos desesperados enervavam-no ainda mais, pelo que passava à segunda fase: atirar-me pelo ar, o mais longe que podia, para dentro da rebentação. Eu tentava sair da água sem que ele me apanhasse. Mas ele esperava, à beira-mar, como um guarda-redes atento, interceptava-me e repetia o processo. O oceano a rugir, as ondas enormes, o turbilhão de água, de areia, o horror. E aquela figura implacável a cortar-me a fuga e sempre a atirar-me lá para dentro. Tudo essencial para uma boa aprendizagem.
- Quando já estava saturado de agarrar em mim e me devolver ao mar, em voo, passava à terceira fase, que consistia em me pontapear e insultar pela praia fora, até à barraca.

Encolhido a um canto, em choque, eu tremia e chorava convulsivamente, enquanto ele gritava toda a sorte de impropérios e me acusava de ser a causa de todas as desgraças da vida dele. A minha mãe lamentava o meu mau feitio e a minha obstinação em não querer aprender a nadar.
Mas não se pense que este processo quiçá um bocadinho demasiado vigoroso foi o único utilizado nas dedicadas tentativas de me ensinar a nadar, para eu ser um homem.  Nada disso! De uma vez em que ele estava bem disposto, a puxar sofregamente o fumo do SG Gigante à beira-mar, chamou-me e tentou uma abordagem psicológica:

"Porque é que tens medo do mar, pá? O mar não tem olhos! Não tem braços! Não tem pernas!"

Com esta extraordinária revelação, nem sei como é que não me atirei imediatamente à água e não atravessei logo o Atlântico Norte a nado, para ir abraçar a Estátua da Liberdade!  
E continuou:

"Tás a ver aquelas gajas ali?" - e apontou um grupo de raparigas e senhoras que se banhavam -  "Tu tens medo do mar e elas não têm. E tu tens picha e elas têm pá!...".


Nessa época, e apesar da Primavera Marcelista, os conhecimentos de anatomia permitidos às crianças eram assaz limitados, e se uma pergunta sobre os pulmões ou o fígado era vista como sinal de inteligência e de um futuro brilhante como médico, uma pergunta sobre a anatomia dos órgãos sexuais era logo premiada com uma valente bofetada.
De modo que eu não sabia praticamente nada sobre essas coisas. Depreendi que "pá" seria o equivalente feminino à "picha" dos rapazes. Fiquei intensamente confuso ante a ideia de que as meninas e as senhoras possuíam uma pá onde nós temos a "picha"! 
O meu irmão tinha uma pá de praia, de plástico verde, e imaginei imediatamente uma no interior das cuecas femininas. Olhei para o grupo de banhistas e fiquei admirado por não se notar nada. 
Durante alguns anos, esse enigma perseguiu-me, e confesso que foi com surpresa que um dia, quando a Rosarinho despiu a parte de baixo do bikini, não encontrei lá uma pazinha de plástico verde.