O protagonista principal da minha infância foi a colher de pau. Nada nem ninguém esteve mais presente no meu quotidiano e nas minhas preocupações. Quando percebi que as colheres de pau não serviam apenas para espancar crianças, já devia ter uns 12 anos. E fiquei deveras surpreendido.
A segurar a colher de pau estava a minha avó, 1 metro e 30 de altura, 1 metro e trinta de diâmetro, rubicunda, a rebentar de cólera. Por tudo e por nada (mas sobretudo por nada) corria para a cozinha e atirava-se à gaveta dos utensílios, emitindo guinchos aterradores. "UIIIIIIIINNN!!! UIIIIIIIINNN!!!" - a raiva que levava era tanta, que não conseguia coordenar os movimentos para abrir a gaveta, desperdiçando as energias a abaná-la violentamente.
A frustração aumentava-lhe exponencialmente a irritação, de modo que, quando finalmente tinha a colher na mão, vinha num estado tal que não poucas vezes partia a colher. E se a dor causada por uma colher inteira já é um suplício, imagine-se quando a colher está partida, cheia de bicos afiados e farpas de madeira prontas a incrustarem-se-nos nas nádegas.
"Mas decerto que o Alexandre era um traquinas, para abalar assim a pobre anciã" - pensariam os leitores, se eu os tivesse.
Pois na verdade, imaginários leitores, eu nada fazia a não ser mexer-me. Ela insistia que eu ficasse sentado numa cadeira, "caladinho e quietinho". E eu, que passava 8 ou 9 horas por dia sozinho com ela, e era uma criança em idade pré-escolar, tinha alguma dificuldade em ficar sentado e silencioso a filosofar durante um período tão extenso. Mexia-me! E levava. De cada vez que me mexia.
Não quero agora meter-me a psicólogo nem nada que se pareça, mas ainda assim estou convencido de que estas curiosas experiências terão sido parcialmente responsáveis pelo meu interesse por drogas e auto-destruição em geral.