O meu pai movia-se com à vontade nos complexos meandros da Psicologia.
O meu pai sempre foi um psicólogo amador de grande engenho. E muito independente; o método científico dizia-lhe pouco.
Um dos testes mais bem sucedidos consistiu em perguntar-me, numa ocasião em que seguíamos os dois de carro sozinhos, à noite, se eu pensava casar. Já habituado aos seus métodos pouco ortodoxos, fiquei deveras angustiado.
Decidi-me por uma resposta prudente, em consonância com os valores sociais aceites. Conhecendo-lhe alguma postura conservadora (vide por exemplo as afamadas Jornadas de Prevenção da Homossexualidade), achei por bem demarcar-me de uma posição ambígua que pudesse ser confundida com a de um abominável invertido, e resolvi crescer, multiplicar-me, e encher a Terra.
Mais ou menos isto:
Mais ou menos o que tinha em casa, o que ele tinha feito. Não havia que errar, pensei. E arrisquei:
- "Sim".
Fui escarnecido sem dó nem piedade, bombardeado com uma chuva de gargalhadas sardónicas, humilhado até aos confins da alma.
- "Nem sei como é que podes ser meu filho! Deves ter sido trocado na maternidade, ó o caralho! Otário de merda! Atão tu não vês que se um gajo se casa tem sempre a mesma mulher, e se fica solteiro pode ter as que quiser, sempre diferentes, pá?!".
Fiz beicinho e virei-me para a janela, para esconder as lágrimas.
Tempos depois, lá em casa, chamou-me, com o seu habitual sorriso afectuoso que precedia as grandes tempestades, e voltou a fazer a mesma pergunta:
- "Então?... Quando fores crescido, queres casar ou ficar solteiro?".
Desta vez já não ia cair - pensei - e, com um ar triunfante, preparei-me para dar a resposta mágica e colher os meus louros. Ainda que todo o meu serse contraísse ante a perspectiva de ser um fornicador compulsivo vitalício, disparei:
- "Não!".
E ele, cúmplice, com um sorriso encorajador:
- "Ai não?... Porquê?...".
E eu, todo lampeiro, repeti-lhe a lição:
- "Porquese casar tenho sempre a mesma mulher, e se ficar solteiro posso ter as que quiser, sempre diferentes!".
Mais ou menos isto:
Tomado de uma acesso de loucura, deu um salto e correu a chamar a minha mãe, para lhe dar as más novas da desgraça que se abatera sobre a família:
- "Ó CLARINHA!!!! Ó CLARINHA!!!! ANDA CÁ VER ISTO!!! NEM QUEIRAS SABER O QUE ESTE CABRÃO DISSE!!! ANDAMOS AQUI A CRIAR UM SACANA!!! ESTE BANDALHO DE MERDA ENGANOU-NOS BEM!!!".
Foi um alvoroço. A minha pobre mãe ficou de coração partido e eu ainda estou envergonhado. E nunca consegui passar em nenhum teste.
P.S. - E o mais transcendente nisto tudo, é a circunstância de o nosso psicanalista profundo ser, ele mesmo, um fornicador compulsivo vitalício; e ser casado. Penso que é esta a distância que separa os génios como ele dos broncos como eu.
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