quinta-feira, 20 de outubro de 2016

As Jornadas de Prevenção da Homossexualidade


 Raparigas. Cheguei a ver algumas. Na missa.

1 - De segunda a sexta tinha aulas de manhã e de tarde - era a escola primária e levava porrada de criar bicho. 
2 - Ao sábado de manhã tinha aulas de Nazismo com o senhor professor Gabriel Prates*, onde ia aprender a fazer a saudação Hitleriana, a regar o solo da África Portuguesa com o nosso sangue, e outras coisas igualmente divertidas. 
* - O nome foi alterado para preservar a identidade do  bom senhor, infelizmente já falecido.
3 - Ao sábado à tarde tinha catequese. 
4 - Ao domingo de manhã tinha banho e missa. 
A escola e a catequese eram segregadas, pelo que aí não convivíamos com raparigas. A missa dominical era quando estávamos mais perto delas, ainda que em alas separadas da igreja. Era o momento mágico da semana.
A minha mãe é que me levava à missa. Na altura, os únicos homens que iam à missa eram o padre, o sacristão e os comerciantes de pronto-a-vestir. 
Depois da missa, o meu pai produzia o seu discurso anti-clerical semanal, acusando os padres de serem todos uns chulos, a religião uma fantochada, e a missa uma pouca-vergonha, porque já lá se cantavam músicas profanas, e "por este andar qualquer dia vão para lá dançar o "rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrroque"**.
** - pronunciar o 'r' como em "aresta", mas muito prolongado.
5 - E ao domingo à tarde tinha a jornada semanal de prevenção da homossexualidade!
Ao domingo à tarde, para evitar que no futuro eu viesse a ser um desses invertidos, o meu pai arrastava-me para um campo encharcado, frio e enlameado, onde uns gajos cabeludos, barbudos e bigodudos corriam atrás de uma bola, rebolavam-se uns por cima dos outros e beijavam-se, quando era golo.



Gajos cabeludos, barbudos e bigodudos, dois putos e um careca.


O chão estava completamente tapado por uma espessa camada de tampas de garrafas de cerveja e gasosa BB (Bem Boa); cascas de tremoços, pevides e amendoins; urina e escarros.
Nas bancadas, gritava-se toda a sorte de impropérios ao árbitro, de cabrão e filho da puta para baixo, passando por "Vai pá puta que ta pariu, pós cornos que t'amassaram!...", um clássico local. 
Uma vez, em casa, eu disse que uma determinada pessoa "fazia cocó no penico". E levei uma tareia das antigas. Mas ali toda a gente dizia os palavrões mais cabeludos. Já o meu pai, tanto os dizia na bola como em casa. Foi sempre um espírito livre.
Depois chovia. E caia granizo. E fazia frio. E trovejava. "Estão a rebolar cascos lá em cima" - dizia o meu pai, misteriosamente - "Daqui a nada está o vinho a entornar...". Eu arrepiava-me ainda mais.
E aquele interminável suplício continuava, com os jogadores da bola a patinharem em poças enormes de água castanha,  sempre sob os insultos e aplausos da multidão enraivecida. 
Se perguntava "Quando é que vamos embora?", o meu pai acusava-me logo de ser paneleiro e a causa da desgraça da vida dele.
O monstro da homossexualidade já me agarrara inevitavelmente, com as suas garras peçonhentas. Eu não gostava de futebol. Eu não queria ser "j'gador"!
Sempre que o Pataias, o Lusitano de Évora ou o Estrela de Portalegre, se acercavam da nossa área, um indivíduo ao nosso lado saia-se sempre com o mesmo grito, com um timbre exorbitantemente ordinário e flexões de pregão de cauteleiro, ou do velho "Há frut' ó... ch'que' laaaa-tiiiiii!!!...".
Era assim: 
"Ó-LHÓS-GALI-FOU-ÕEEEES!... ".
De todo aquele espectáculo absurdo, bárbaro e profundamente deprimente, era isso que mais me custava. De cada vez que os adversários ganhavam a bola, ele não falhava:
"Ó-LHÓS-GALI-FOU-ÕEEEES!... ".
Na frase acima, sempre que haja um hífen, imagine uma espécie de soluço chunga afadistado.  
Todos os domingos. A cada 30 segundos. E a malta ria-se sempre. Não era fácil... 



  "Ó-LHÓS-GALI-FOU-ÕEEEES!... ".

Em todo o caso, tiro o chapéu ao meu pai, que considero um visionário da pedagogia. Não só não dei em invertido, como fiquei com verdadeira aversão a paneleirices. Sempre que vejo os futebolistas a rebolarem-se uns por cima dos outros, a lambuzarem-se e a apalparem-se, por causa dos golos, dá-me logo vontade de ir buscar uma caçadeira e de lhes atirar chumbo para cima.


Francamente.



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