A minha mãe pertence à geração "A Mulher na Sala e na Cozinha", um livro que prescrevia, na sala, muitos cinzeiros para o maridão encher de beatas, e na cozinha, fritos e guisados com fartura.
O fumo dos cigarros e o fumo dos cozinhados enchia a casa, de modo que eu, quando chegava, até cantarolava aquela canção do Rui Veloso que diz "no meio da neblina...".
Como tenho o pulmão fraco, a casa sempre cheia de fumo proporcionou-me uma asma vitalícia, que sempre divertiu muito o meu pai. Eu a estudar Matemática para os exames, a arquejar, cheio de farfalheira, e ele a fumar, com o televisor no máximo e o Marco Paulo aos berros. Impagável!
Antes de sair para o café chegava-se ao pé de mim com um cigarro e um isqueiro e começava a fazer uma espécie de malabarismo, tipo "acendo/não acendo", e ia-se embora às gargalhadas pela escada abaixo.
Como também tenho o estômago fraco (talvez devido a uma infância de force-feeding) a dieta de fritos e guisados era como se estivesse a comer ácido de baterias. Eu pedia salada, alimentos mais leves, cozidos ou grelhados e ele acusava-me logo de ser "fidalgo" e só querer "coisas finas", e dizia: "A malta faz o que é mais rápido".
Mas a carne estufada (que enchia a casa de cheiro a cocó) e a carne guisada (que sabia a cocó) demoravam horas a cozinhar na panela de pressão. Ele só dizia aquilo para me irritar.
A dada altura, quando o meu fraco estômago já não aguentava mais, manifestei vontade de ser vegetariano, o que ele interpretou como o último passo antes de eu me lançar pelas ruas à noite vestido de mulher a engatar estivadores. A minha mãe considerou o meu pedido como um insondável mistério. A minha madrinha de baptismo tinha a mania que era vegetariana, mas quando lhe pedi receitas ela reflectiu profundamente e só se lembrou de "arroz com uma cebola lá dentro".
Depois de andar umas semanas a comer "arroz com uma cebola lá dentro", declarei-me enjoado e regressei à dieta máscula.
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